3.3.08

Destino: Centro - Parte III

OU: DA BUROCRACIA BURRA DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

De verdade que eu tinha saído feliz do Poupa Tempo e da rapidez com a qual fui atendida. Daí me perdi um pouco pelos meados das ruas pequeninas que cercam a Sé, quase foi atropelada por um motoqueiro louco, e achei o prédio central da Caixa após pedir ajuda prum guardinha antipático e péssimo da Guarda Civil Municipal.

Muito bonito o prédio da CEF lá na Sé. Histórico, abriga lá dentro um centro cultural. Escadarias antigas, janelas antigas, aquele mármore que não acaba mais... uma coisa linda de deixar qualquer mortal em busca do Bolsa Família abismado.

Pois bem. Mas eu estava em busca do meu FGTS. E como foi demorado consegui-lo... Primeiro me indicaram o andar errado, o primeiro andar. Segundo, cheguei no andar certo, o terceiro, e fiquei na fila porque na teoria dos carinhas da porta do andar eu precisaria necessariamente ter o protocolo do meu Cartão Cidadão para prosseguir com o saque. Fiquei na fila, pedi o tal do cartão, chega em 30 dias na sua casa, ok entrei no banco. Não tinha muita fila para os caixas, então logo fui atendida. A moça foi bem gentil e eficiente (uma rara Nilma na CEF), me garantiu de pés juntos que não, eu não preciso do protocolo do Cartão Cidadão para sacar meu FGTS.

MAS tinha um probleminha (porque óbvio que além de perder 40 mins na fila do desnecessário Cartão Cidadão, algo a mais também precisaria dar errado). O nome da minha mãe estava registrado no meu PIS com um "NA" a mais. Lá ela era Mariana Cristina, e não Maria Cristina. "Não posso pagar seu FGTS como essa informação errada". Coloco a máscara "loser do labirinto da burocracia" na cara e desço pro primeiro andar, no balcão de informações, onde poderei corrigir esse dado. Tive também que pedir o cancelamento do meu Cartão Cidadão, porque nele o nome da minha também estava errado, já que tinha tomado como base a informação do registro do PIS.

Desço bufando as escadarias, com um mau-humor que nem cabia dentro de mim de tão intenso. Me fez abrir um sorriso o telefonema do amigo querido vizinho e irmão de fé e sei lá mais o que falando que ele estava me esperando pro almoço.

1o andar, balcão de informações, burocracia pública daquela maior má vontade do mundo inteiro. Mais 27 minutos na fila, cronometrados e justinhos (só tinha duas pessoas na minha frente, essa informação é bastante relevante para enfatizar o pé no saco). Tiro o "NA" a mais do nome da minha mãe e saio em disparada pro almoço, porque já era tarde, eu estava faminta, e almoçar seria um belíssimo dum prêmio merecido àquela altura do campeonato.

Almoço e volto, ânimos refeitos, nome da mãe sem o "NA" a mais, e decisão de que seria sim uma boa refazer o Cartão do Cidadão porque com ele eu só precisaria ir a uma lotérica qualquer para sacar o Seguro-Desemprego.

O cara do Cartão-Cidadão riu da minha cara ao me ver entrar na fia de novo. Na minha frente na fila, uma senhora bem velhinha e com cara de mãe de família chora ao ver o cara rasgar o cartão do Bolsa Família dela. Aparentemente ela tinha demorado um tempão para conseguir um daquele, mas daí o endereço residencial dela mudou e ele achou justo que ela esperasse mais seis meses pelo cartão dela do Bolsa Família.

Pois bem, refiz o Cartão Cidadão, mesmo sabendo que esse protocolo era desnecessário para o saque do FGTS. Entro na fila do caixa, e lá se vão outros 53 minutos... (sim, porque afinal quem está lá naquela fila é porque não tem mais nada para fazer da vida a não ser tirar o dia para brincar de labirinto da burocracia da CEF). Saco o tal do FGTS, pago os 14 reais (assalto!) de doc pra minha conta, e saio de lá correndo.

Correndo, correndo, correndo, como o diabo foge da cruz, torcendo para nunca mais voltar - a não ser que tenha alguma exposição legal lá no Centro Cultural.

Dialética Kafkaniana

OU: DA BARATA DA VIZINHA

(para o leitor fiel: a série "Destino: Centro", voltará em breve, com três novos e inéditos e ainda inexistentes e totalmente emocionantes posts: "Da burocracia burra da Caixa Econômica Federal", "Do almoço" e "Do retorno para casa". Você não perde por esperar!)

E aí eu li Kafka no primeiro ano de PUC. Já tinha lido no 1o colegial, mas o Kafka basicão: "A Metamorfose". No primeiro ano de PUC, um Kafka mais crítico, mais denso, e mais desesperador: "O Castelo". Para aprender política, Rousseau e Hobbes na veia para assustar bichos de primeira viagem. Depois, só voltei a ler Kafka ano passado, "Carta ao Pai", que ficou tanto tempo intalado na minha cabeceira. E agora está intalado na cabeça. E na garganta, aquela intalação desesperadora de um berro anti-oposto-do-Édipo. Pretendo ler mais Kafkas, mas por enquanto, nessa vida kafkaniana, quero antes dar cabo desse berro anti-oposto-do-Édipo. Então deve demorar mais alguns anos de terapia, talvez, para que eu consiga ler outro Kafka.

Antônio, você está aí?
Antônio, você tem me visitado aqui?
Antônio, você me entende?

Mas voltemos. Domingão, aquela insônia básica pré-começo-de-semana, e eu aqui no MSN. Daí eu disse que eu estava elétrica, e ele perguntou se eu estava apaixonada (por quem eu estaria, meudeusdocéu? Por quem??) no que eu respondi que apaixonada, só por mim mesma. (Porque mulher inteligente é assim mesmo: orgulhosa) Daí ele me achou desanimada e eu disse: desânimo? Eu que o diga... e daí ele quis saber que que eu queria dizer com esse eu que o diga. E eu disse que eu só tinha dito eu que o diga porque antes de tudo ele tinha perguntado se eu estava com insônia por que estava apaixonada e eu disse que apaixonada só se for por mim mesma e ele citou desânimo e eu disse: eu que o diga.

E disse a ele que então tínhamos instaurado a dialética kafkaniana. Disse a ele sobre O Castelo, qual é a história do livro, e qual foi o contexto de vida no qual li esse livro. Contexto esse que vocês podem conferir acima. Expliquei a ele (nas entrelinhas, obviamente como toda mulher e ainda por cima boa escorpiana que sou que se preze) qual seria a relação do Kafka com aquela conversa. Ele lembrou do Kafka, da barata e, pelo msn, e assumindo que fazia piada barata (isso eu tiro o chapéu: esse cara tem um bom senso de humor) começou a cantar a música da barata. Daí eu arrematei, perguntando como fomos parar lá, na paixão, no desânimo, na barata, no Kafka, e no castelo. Nisso ele respondeu que era porque nossos pais tinham nos educado de boa forma e nos oferecido boa educação. Eu bati palmas clap clap clap, porque achei uma saída inteligente. Imediatamente foi escolhido outro assunto para abordarmos virtualmente.

De qualquer forma, conclusão nenhuma foi atingida, e ele permanece sem entender que que eu quero dizer por: eu que o diga. Resumindo a ópera e deixando as entrelinhas de lado, a verdade é que tudo que é devagar por excesso e por princípios pode ser potencialmente e deveras desanimador (fato acentuado pelo fato de eu ser escorpiana, absolutamente passional, verdadeiramente intensa). Eu que o diga, porque ele nunca dirá. Mas de qualquer forma jamais poderia estar apaixonada, a não ser que por mim mesma.

A boa notícia é que tive um diálogo deveras interessante e realmente intrigante nesse domingo à noite. O conhecimento dele por literatura não me decepcionou, muito menos o gosto (dele, meu) bastante atípico por piadas de gosto duvidoso.

Detalhe importante: o Antônio com quem eu dialogo nesse blog não é o mesmo ser humano com o qual eu dialogava no msn o diálogo doravante aqui retratado. (Apenas porque essa observação é bastante importante para o entendimento do post... e aliás, para bom entendedor meias palavras bastam, e o Antônio e o ser humano do diálogo teriam entendido)

Esse diálogo bastante interessante também me trouxe um bom tema para um bom post, então na verdade eu tenho mais é que agradecer pela companhia.

E no começo (da semana), (eu) era o pó. Boa noite de insônia de domingo a vocês!

1.3.08

Destino: Centro - Parte II

OU: DA BUROCRACIA INTELIGENTE DO POUPA-TEMPO

Mesmo caminho do dia anterior, com uma batida de perna um pouco maior, e logo cedo. (Por cedo, considere 10 e meia da manhã, que essa vida de horários flexíveis está me proporcionando algumas boas mamatas)

Minha grande sorte é que não estava muito quente nem muito abafado, e não fazia sol. Estava nublado, mas também não chovia. Simplesmente o tempo ideal para longas batidas de perna pelo centro.

Depois de passar pelo Páteo do Colégio, segui até a bagunça da Sé. Bagunça deliciosa e barulhenta, aquela coisa miscelânea absurdamente. Pastores engravatados pregando ao lado de mendigos bêbados e da Guarda Civil Metropolitana. Tudo isso em uma praça muito grande e muito bonita e verdadeiramente cheia de gente, embora muito suja e depredada também. Andei bastantão por lá, já que o Poupa Tempo está no final da praça.

Muita fila no Poupa-Tempo, mas os caras por lá são bons. Eles sabem fazer a coisa certa. Fui dar entrada no meu de seguro-desemprego. Primeiro uma fila pequena e rápida onde eles verificam se a documentação está ok e pronta. Daí ganhei uma senha e fiquei esperando que meu número apitasse vermelho no painel. Não esperei nem muito nem pouco, apenas o suficiente para ficar lá observando.

Mas no Poupa-Tempo ninguém puxou papo, então foi muito mais uma observação distanciada. Muita gente pedindo Seguro-Desemprego, mas mais gente ainda na fila para se cadastrar para os programas de emprego do governo do Estado. Não sei se esse programa funciona, mas tem muita gente que acredita nele. Eu torço para que dê certo para todo mundo. Aparentemente dá, porque embora tivesse muita gente se cadastrando pro Seguro-Desemprego, as taxas de emprego estão subindo, então acho que algum dia todo mundo que estava lá vai achar uma vaga para chamar de sua.

Depois do meu lado se sentou um mocinho com roupa de descolado. Realmente um outsider que nem eu, mas ele fazia questão de se mostrar outsider. Fiquei torcendo para que o celular dele tocasse e eu pudesse ter uma noção do background do marotinho. Qual não foi minha sorte quando o celular dele tocou... não só uma, como duas vezes! Na primeira vez era o pai ligando, e os dois discutiram pelo celular e em pleno Poupa-Tempo onde as pessoas vão pedir empregos que paguem 200, 600, talvez estourando mil reais, o que eles iam fazer com sete mil. Discutiram as possibilidades de comprar Vale, Petro, ou alguma menor que envolvesse mais riscos e mais ganhos. Queriam com esse dinheiro diversificar os investimentos deles na Bolsa. Sim, eles estavam discutindo sete mil reais para comprar ações. Sim, as pessoas ao nosso lado queriam um trabalho que pagasse 6oo no mês, pessoas bem similares à Dona Vânia ou ao Seu Pedro do dia anterior. Daí ele disse ao pai que depois do Poupa-Tempo teria que ir à FAAP se matricular na DP de História da Economia. Eu particularmente não sei o que eu odeio mais: se são os estereótipos, ou se são as confirmações dos estereótipos. Daí a avó ligou: pediu ao menino que fosse com o motorista dela retirar os vinhos que ela tinha encomendado para o jantar daquela noite. Aiai, e ele lá no Poupa-Tempo. Antes que você, ó caro leitor, me pergunte o que esse menino estava fazendo lá, eu te respondo: ele estava pedindo a Carteira de Trabalho dele, ia começar a trabalhar em uma corretora de ações e precisaria ser registrado.

Daí apitou vermelho meu número no painel. Mesa 21. Era a Nilma minha atendente, mulher bonita, com aquelas rugas que denotam uma bela história de lutas por trás do que eu não via. Não bati papo com ela, ela pedia a documentação e eu dava. Mas fui cordial com ela, e ela cordial, rápida, e eficiente comigo. Me tratou bem, me deu o protocolo carimbado, 30 dias e estará disponível. Disse um muito obrigado bastante sonoro e bem pronunciado, para não deixar dúvidas que eu realmente estava agradecendo a ela. Disse também um tenha um bom dia bastante sonoro e bem pronunciado, porque era realmente isso o que eu desejava a ela, ela que me tratou tão bem. Poxa, ela me respondeu com um sorriso (banguela, mas com batom vermelho). Mais do que meu Seguro-Desemprego em 30 dias, recebi um sorriso da Nilma. Não poderia sair de lá mais feliz do que isso, de um tanto que até fiquei emocionada.

Eu saio feliz todas as vezes que me dirijo ao Poupa-Tempo e que vejo como a burocracia pode ser bem gerenciada e funcionar belamente. É mais ou menos como telefone celular: a gente vivia bem sem ele, mas hoje não sabe mais o que é não ter celular. Poupa-Tempo é exatamente isso: não consigo imaginar o que é tirar uma 2a via do RG, renovar a Carta, ou dar entrada no Seguro-Desemprego em outros estados brasileiros. Mas uma certeza eu tenho: deve ser bem mais difícil, demorado, e sofrido.

De lá, saí com dois desejos secretos:
- que o menino da FAAP tivesse que tirar a CTPS dele no Acre, para suar na pele a burocracia que não funciona.
- que a Nilma realmente, verdadeiramente, tivesse um bom dia.

29.2.08

Destino: Centro - Parte I

OU: DA IDA AO SINDICATO

Chegou finalmente e já veio tarde depois de dois meses e mais de espera o dia da homologação no sindicato. Dia corrido esse na minha vida, curso de manhã, curso à noite, e à tarde... uma ida ao sindicato.

Não foi tanto o caminho nem o ato. Foram mais as pessoas. Aliás, como sempre na vida, né?

Uma chuva forte desesperadora depois do almoço... não estava com pique que meu caminho do Terminal Bandeira ao Sindicato fosse encharcado. Pois bem que a chuva parou, e eu aposto que foi a força do pensamento. O compromisso lá era às 15hs.

- Terminal Bandeira: meu caminho mais próximo pro centro, mais rápido e fácil e barato do que metrô e descer na Sé;
- Rua do Ouvidor: pai, obrigada por me mostrar que no Terminal você pode sair ou pelo Anhangabaú, ou pelo "lado leste", porque com essa dica eu andei bem menos do que seu eu fosse até a Xavier, atravessasse o viaduto, etc, etc, ...;
- Líbero Badaró;
- Praça do Patriarca, que ficou muito feia com aquela matriz estranha e abstrata e muito muito branca, como se fosse um elefante branco perto do Anhangabaú e da prefeitura;
- Rua da Quitanda: suspiros encantados quando ela cruza com a Alvares de Azevedo, que lá fica o CCBB bonito muito bonito;
- XV de Novembro;
- Praça Padre Manoel da Nóbrega: do outro lado da Boa Vista, o Páteo onde tudo começou. Desse lado de cá, o Sindicato.

Sindicato dos Terceirizados é bem complicado... dá de tudo, mas eu era minoria absoluta lá. Lá onde as pessoas não sabem nem que se pode usar óculos com armação vermelhinha. Lá, onde All Star é sim status. E olha que eu estava me esforçando para parecer uma igual, juro que eu estava.

Fila de espera... milhares da cadeiras, de pessoas, de rugas a mais nas caras tristes de muita gente, de sorrisos banguelas e desajeitados.

O Gil mesmo disse que foi choque de realidade. Foi sim, Gil, mas não, Gil, eu não sou patricinha dos Jardins como você adora falar. Eu sei que você fala de zueira. Foi só uma reforçada.

Não sei que que é... se é o fato de que estou sempre descabelada, ou se são os olhinhos pequeninos que tenho. Sei que as pessoas de repente julgam que eu posso ser simpática, e elas adoram puxar papo comigo. E daí eu sou simpática, puxo papo de volta, e aquela espera para fazer a homologação não foi só choque de realidade, foi noção de tristeza, foi lição de vida.

Dona Vânia, ex-auxiliar de limpeza, mora para lá da Estrada de Itapecirica, perto de um lago muito bonito. Foi demitida porque foi pega comendo restos de bolo de aniversário que alguém tinha deixado em alguma baia na noite anterior. Compareceu ao sindicato com os sete filhos, porque naquele dia eles não tinham com quem ficar. Todos em uma escadinha muito apertada, de 9 anos a 7 meses. O de 9 anos aparentemente já tinha entendido que por algum tempo ele seria o apoio dos pais e estava então incumbido de ser um pouco pai dos irmãos mais novos todos. Ele parecia impressionantemente responsável. O marido da Dona Vânia é faxineiro de um prédio na Vila Santa Catarina, que pelo menos é perto de casa (ele só tem que pegar um fretado, um ônibus e uma van, bem melhor do que ela que costumava pegar van, trem, metrô e ônibus). Eles estão preocupados porque ele ganha R$ 300,00 por mês, os R$ 200,00 que ela ganhava ajudavam muito no orçamento da casa, e agora eles querem saber como sustentarão a família antes de ela voltar a trabalhar.

Daí entrou a Dona Vânia para Homologar.

Nisso, o Seu Pedro, que estava prestando atenção na nossa conversa, me disse que eu sou muito simpática e que tenho boa conversa. Foi a saída que ele encontrou para puxar papo. Seu Pedro trabalhou lá no centro mesmo desde jovenzinho, sempre como zelador, cargo de confiança, sabe? Tive até que dar jeito de evitar visita surpresa da esposa porque sabia que o marido dela estava com a secretária no escritório fazendo essas coisas que a gente sabe... Já entreguei envelopes grandes com muito dinheiro e já me pagaram até almoço de restaurante desses que entrega no escritório mesmo, porque eu precisava ficar lá na portaria dando cobertura. Dando cobertura para quê, Seu Pedro? Ah, você sabe... essas coisas que cargo de confiança tem que fazer. Enfim, a história do Seu Pedro é legal até dois meses atrás. Na onda de terceirização que o Brasil passou com o Plano Real (não sei qual a relação direta entre uma coisa e outra, mas sei que essas duas coisas coexistem cronologicamente) o pessoal do prédio não quis demiti-lo (cargo de confiança, dona moça, sabe como é) e pediu que a empresa terceirizadora o contratasse. Assim foi feito. Até finalzinho do ano passado, quando a empresa se deu conta que daqui há pouquinho tempo Seu Pedro poderia se aposentar. Pois é. Ela não quis se responsabilizar pela aposentadoria do Seu Pedro, e no olho da rua ele está. Seu Pedro tem uma esposa cozinheira, casa de família rica, faz banquetes e festas e jantares; tem um filho taxista, Graças a Deus ele conseguiu pegar o ponto de Congonhas, ficou na fila por muito tempo mas conseguiu, e tem uma Zafira linda que você precisava ver dona moça; e tem uma filha professora, formada em universidade particular e que ele pagou ele mesmo pra filha, e que é o grande orgulho dele ter oferecido essa faculdade para a filha.

Daí eu entrei para homologar e logo em seguida voltei para casa. Seu Pedro não estava mais lá na sala de espera, e Dona Vãnia com suas sete crias já tinha ido embora. Voltei para casa, mas não era mais igual não, dona moça.

Diálogo de Irmãos

Cena: levando meu irmão de volta para a casa dele.
Quase uma da manhã de uma quinta pruma sexta.

Eu: Fulano (nome do ex-namorado) me ligou na 3a.
Rádio: Amo tua voz e tua cor
Ele: Ah, é? Como foi?
Rádio: E teu jeito de fazer amor
Eu: Foi ótimo. Eu estava morrendo de saudades. Fazia tempo que a gente não se falava.
Rádio: Revirando os olhos e o tapete
Ele: Ah, é?
Rádio: Suspirando em falsete
Eu: É... talvez nem tanto, vai. 15 dias, desde o aniversário dele.
Rádio: Coisas que eu nem sei contar...
Ele: ...
Rádio: Ser feliz é tudo que se quer
Eu: Foi gostoso, os dois estavam com saudades, ficamos batendo papo, colocando as notícias em dia. Foi leve, sabe? Amigos...
Rádio: Ah! Esse maldito fecheclair
Ele: ...
Rádio: De repente a gente rasga a roupa
Eu: Estou preocupada com ele. Ele tem dormido no máximo 3 horas por noite. Acho que isso pode atrapalhar ele na prova.
Rádio: E uma febre muito louca faz o corpo arrepiar...
Ele: É verdade, também acho... Aliás, quando é a prova?
Rádio: Depois do terceiro ou quarto copo
Eu: Domingo, dia 09. Está aí.
Rádio: Tudo que vier eu topo
Ele: É...
Rádio: Tudo que vier, vem bem
Eu: Estou pensando em ir visitá-lo em Brasília assim que sair meu primeiro projeto. Estou com muitas saudades.
Rádio: Quando bebo perco o juízo
Ele: Nana, tem certeza de que você quer fazer isso?
Rádio: Não me responsabilizo
Eu: ...
Rádio: Nem por mim nem por ninguém...
Ele: Você não precisa se machucar de novo...
Rádio: Não quero ficar na tua vida
Eu: ...
Rádio: Como uma paixão mal resolvida
Ele: Até acho que pode voltar a acontecer alguma coisa entre vocês, e se dessa vez te fizer bem, sou totalmente a favor.
Rádio: Dessas que a gente tem ciúme e se encharca de perfume
Eu: ...
Rádio: Faz que tenta se matar...
Ele: Mas ainda acho que você não assimilou exatamente tudo que aconteceu entre vocês e o que te levou a terminar esse namoro.
Rádio: Vou ficar até o fim do dia decorando tua geografia
Eu: ...
Rádio: E essa aventura em carne e osso
Ele: Você precisa se descobrir, Nana.
Rádio: Deixa marcas no pescoço, faz a gente levitar...
Eu: ...
Rádio: Tens um não sei que de paraíso
Ele: Boa noite, obrigada pela carona.
Rádio: E o corpo mais preciso que o mais lindo dos mortais
Eu: Agora a gente só se vê domingo, né?
Rádio: Tens uma beleza infinita e a boca mais bonita que a minha já tocou...
Ele: Não sei... a gente se fala até lá.

Ter irmão mais novo, mais lúcido, e muito amigo, resulta em um diálogo assim com uma certa frequência.
Por isso que eu amo meu irmão, embora às vezes odeie as perguntas que depois das nossas conversas ficam martelando na minha cabeça. A vida seria mais fácil sem essas perguntas, se bem que não sei se necessariamente seria melhor.

Faltam quantos minutos mesmo pra sessão de terapia de 4a que vem?

Música incidental, tocando na Nova Brasil FM 89,7: Paixão, Kleiton e Kledir.

25.2.08

A Seta e o Alvo

E por falar em mosca (post abaixo), resolvi ouvir Moska - o cantor. Uma de suas músicas mais lindas, A Seta e o Alvo.
Ah, que foi trilha da deliciosa esparrela master de 2005, fruto de todas as ilusões que eu poderia ter construído no mundo.
Eu ando em um labirinto, e você em uma estrada em linha reta.
Sua meta é a seta no alvo, mas o alvo na certa não te espera.
À época, parecia que era ele cantando para mim.
Eu, a pessoa sem graça. Ele, a pessoa complexa.
Hoje parece que a seta mudou, ninguém mais sabe de fim da estrada, eu não procuro mais o fim da estrada, eu não acredito mais em estabilidade. Não sei se tenho alvo ou se sou uma seta à procura de um alvo.
No meio de toda essa metamorfose, a deliciosa esparrela se converteu... aconteceu tudo junto.
A esparrela se convertendo e eu me mudando.
E ela se converteu para uma amizade, das mais lindas, das mais intensas, das mais verdadeiras.
Não vou mais me alongar. É só isso.

22.2.08

A Mosca e a Mariposa

Entrou a mosca.
Bem-vinda, ilustre visitante!
Não sou daquelas que faz xilique porque entrou um objeto alado não muito bem identificado, e começa a gritar e fugir e fazer pequenos escandalosinhos.
Mas essa mosca era grande, peluda, muito preta, e deveras barulhenta.
Tenho um quê meio bióloga. Gosto de ficar vendo a mosca baster no vidro e fazer aquele "barulho crocante" de quem não entende o vidro e quer passar pro outro lado. E dá-lhe "barulho crocante".
E eu aqui trabalhando, e a mosca no vidro, zuuuuuuuummmmmmmmmmm, créc, créc, zuuummmmmmmm, créc, créc, créc, zuummmmmmmmmmm zuuummmmmmmmmmm, créc.
O que eu fiz?
Abri a janela, para a mosca ter mais espaço de encontrar a liberdade. Mas aconteceu um imprevisto, e o que era para ajudar a mosca, só atrapalhou. As duas "folhas de janela" se sobrepuseram uma à outra quando eu abri totalmente a janela. E a mosca ficou encalacrada entre um vidro e outro, fazendo um micro-créc de um lado, micro-créc de outro, micro-créc de um lado, micro-créc de outro.
Nisso, afastei a cortina e qual não foi minha surpresa: uma mariposa habitava meu quarto, atrás da cortina! Não faço a mínima idéia de há quanto tempo a mariposa existia por esses cantos.
Mas lá estavam, a mosca e a mariposa, encalacradas entre as duas "folhas de janela".
A mosca, inquieta e barulhenta, se debatendo entre os vidros. A mariposa, passiva e pacífica, contemplando o mundo.
Foi bonito de ver. Mesmo. Quase um laboratório no meu próprio quarto. Só faltou o bico de bunsen.
Daí fechei a janela, para que as "folhas de janela" permitissem que a mosca e a mariposa ficassem livres, e elas voaram para fora, bonitas.

Eclipse

Cientificamente, um eclipse lunar acontece quando a Terra fica em uma linha reta entre o Sol e a Lua. Ou seja, é formada uma sombra sobre a Lua.
Quarta feira teve eclipse lunar.
Na 3a, o amigo disse que uma pena que amanhã a noite estará nublada e não veremos o eclipse. Ué, mas como você sabe que a noite estará nublada. Ah, Mari, a gente mora em São Paulo...
Na 4a, me deixei levar pelo fato de morar em São Paulo, onde ultimamente as noites têm sido nubladas. Cheguei até a me esquecer do eclipse! Pois bem, trabalhando daqui e minha mãe vendo o Jornal da Globo de lá, ela gritou preu ir ver o eclipse da lua pela TV.
Pensei que era muto injusto ver só pela TV... que se a repórter estava aqui em SP, então eu também conseguiria ver a mesma lua que ela - nada de noite nublada!
Desci, desesperada, consciente de que moro em um bairro selva de concreto acentuada dentro de uma enorme selva de concreto. Fui até a esquina. Achei a lua e fiquei lá, olhando, como estava bonito o eclipse na lua cheia! Como era poético ver a rua molhada, poucos carros passando, muito silêncio, uma lua em eclipse, algumas estrelas no céu, dentre tantos prédios.
Fiquei lá, hipnotizada. Encantada. Inebriada. Paralisada.
Resolvi voltar para o apê. Contei a todos, empolgada, sobre a beleza do eclipse da noite de hoje.
Daí a mãe disse: mas se você viu da esquina, será que não dá para ver da janela do seu quarto?
Corri aqui de volta. Dito e feito!! Um quarto com uma vista privilegiada para o eclipse. O único cômodo da casa com essa vista.
Coloquei "La Edad del Cielo" (Jorge Drexler) para tocar, arrastei o puff até debaixo da janela, fiz um malabarismo estranho com as pernas para caber todo mundo lá (eu, os meus olhos com vista pro eclipse, as pernas em algum lugar, e o puff debaixo da janela) e fiquei admirando.
Tudo escuro aqui dentro, vizinhos todos com luzes apagadas, só eu em uma posição esdrúxula, e a lua em seu eclipse.
Nossa, que lindo que foi!
Que especial que foi essa quarta à noite...

18.2.08

Carla Bruni, agora primeira-dama

Pois é, quem diria...

Ela era a cantorinha francesa que todo mundo na Argentina conhecia e que ninguém no Brasil conhecia.
(julho/2006)
Daí ela virou a cantora da musica preferida de blog alheio, música essa que tinha o nome do ex namorado.
(junho/2007)
De repente ela virou a cantora daquele cd roubado da coleção de cds do ex namorado.
(junho/2007)
CD esse que nunca foi devolvido.
(setembro, outubro, novembro, dezembro/2007)
De repente ela estava namorando o bonitão do presidente francês.
(dezembro/2007)
E posou nua na revista espanhola.
(dezembro/2007)
E fez escândalos com o anel da ex esposa de seu atual namorado (noivo? marido?).
(janeiro/2008)
O mundo inteiro soube então que ela é italiana, modelo, e com um belo currículo de homens deixado para trás...
Em prol do bonitão do presidente francês.
(janeiro/2008)
E eles se casaram agora.
(fevereiro/2008)

Não sei tem felizes para sempre. Não no caso deles, ao menos.

E, quanto à Caras... sim, eu leio, uma vezes por semana todas as semanas, cada vez que eu vou na manicure. Porque afinal, unhas vermelhas demandam assim como cantora francesa.

Voltando...

Pois é.
Dois meses e 16 dias. Aproximadamente...
Ou, exatamente um mês e meio.

Tanta coisa que dá até preguiça de falar.
Tanta coisa que bate esclerose multipla temporária.

Não venho aqui há tanto tempo porque todo o resto estava demandante em excesso. Agora as coisas começaram a dar certo de novo. Eba, eba!

Pontos altos do período de ausência:
- bati meu carro em um caminhão de lixo.
- aprendi a baixar música.
- conheci o paraíso de nome Japaratinga.
- vi "É culpa do Fidel" e vi "Juno", por enquanto os melhores da temporada de verão.

Fertilidades, fertilidades...

2.12.07

Sim, sim, sim!

Sim à vida, ao final de semana, à Darjeeling e ao delicioso jantar em companhia perfeita.
Sim à conhecer de madrugada o apê novo do queridão do peito.
Sim ao sábado cansativérrimo, à reunião na Gotas, à firma de Oxalá, ao cochilo na vovó.
Sim à beleza da noite de sábado, à lua linda que estava no céu, ao show absolutamente inesquecível, ao trânsito da Augusta e à balada na Vila.
Sim ao domingo de sol e de sono, de suco e de casa da vó.
Um sim gigantesco a essa coisa linda que é viver intensamente os finais de semana!

28.11.07

É sábado!!

Bom Senso - Tim Maia

Já virei calçada maltratada
E na virada quase nada
Me restou a curtição
Já rodei o mundo quase mudo
No entanto num segundo
Este livro veio à mão
Já senti saudade
Já fiz muita coisa errada
Já pedi ajuda
Já dormi na rua
Mas lendo atingi o bom senso
A imunização racional

De novo lá no espaço bom demais de estar - Auditório Ibirapuera.

27.11.07

Meu melhor leitor

Meu melhor leitor é meu melhor amigo.

Ele não sabe o que é fechar relacionamentos e vive seguindo mesmo assim - ah, sim, eu queria ter umas aulas com ele.

Está la na Austrália, há todos os oceanos e alguns mil kilômetros de distância, liga me dá susto me realiza e me deixa feliz pelo resto do dia.

Disse que entra no computador, abre o hotmail, o yahoo, o orkut, o facebook, e em seguida o Très Fantastique. Sim, ele me lê todos os dias.

Saudades dele... imensas e intensas. Não é justo não ter nem seu colo nem seus puxões de orelha nem nossos entardeceres bêbados no boteco da esquina (ok, essa última parte foi ficção, porque estou ficando forte só agora).

Digo sinceramente que te amo profundamente.

Vida Ordinária

Desce a rua Augusta, vai sentido centro, shorts curtos e olhos borrados de tanta maquiagem. Uma long neck na mão - com vodka. Pura.

Vai, cambaleante. Vai, caminhante.

Não para de descer a Augusta. Agora, faz parte da fauna como membro integrante e assumido. Se sente assim, junto de todo mundo, uma igual a eles.

Fuma cigarro atrás do outro, gosta do ardor da nicotina quando encontra o pulmão já tão cheio dela.

As buzinas são chatas, mas é o som da rua que chega em seus ouvidos.

Os caras são chatos, mas afinal, quem não gosta de ser chamada de GOSTOSA com a boca cheia? Ninguém está à altura dela - e ela sabe bem disso.

Vai, vulgar, devassa, só segue sem olhar para trás.

Pára na Roosevelt. Conversa com gente igual ela.

Segue, cada vez mais, pro centro. República, mendigos e putas. Lixo no meio da rua. Poesia concreta paulistana. Deselegância discreta, mas não tem mais menina.

Loucas noites têm reinado, com cada vez melhores companhias.

Descabela, só porque acha que é legal.

Agora é cachaça que ela quer.

Borra mais um pouco os olhos. De cambaleante, cai e rala a perna, levanta e continua a andar.

Bem que essa poderia ser eu daqui há alguns anos. De vida ordinária cheia de Locas Noches, logo logo chego à vida bandida que atualmente tanto almejo.

Enquanto isso, meu deleite é a vida bandida e deliciosamente romântica do Xico Sá. É frase dele: "Só a lascívia embeleza uma fêmea". Cá estarei eu, prova viva disso, quando realmente tiver minha vida bandida, quando eu conseguir ser deliciosamente romântica sem que isso signifique o fundo do poço.

Por enquanto, errada estou e errada fico. Me estrago mais um pouco a cada final de semana. Nunca pensei que viver assim fosse tão delicioso.

Errada estou e errada fico. Fim feliz é isso.

Sugestão: http://carapuceiro.zip.net/

ps.: vem do horizonte uma nuvem cinza que cresce e se aproxima. Mais um final de semana que será FORTE. Isso porque por enquanto hoje só é terça.

Aiai, vida ordinária.

26.11.07

Do the right thing

No meu mais novo foco "carreira", olha só o artigo publicado pelo Valor hoje e que se encaixou bastante para mim:

http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/eueinvestimento/167/Mudar+de+emprego+da+o+maior+trabalho+prepare-se,072611,,167,4652731.html

Recomendo para todos os que quiserem programar uma guinada na carreira, mesmo que isso não envolva mudançan na área de atuação, e sim simplesmente mudança de empresa.

"Muitas vezes tirar o fio da tomada por algum tempo pode ajudar. Desligar-se temporariamente para reorganizar a vida em geral, inclusive a carreira, é uma excelente ferramenta de apoio para tomada de decisão. Pode começar pequeno, com um dia de folga, depois com uma emenda de feriado, mais tarde com férias merecidas esticadas e por que não, um período sabático mais longo."

É bom começar a 2a feira assim.

25.11.07

Coisa de aspira e coisa divertida

É coisa de aspira:

- comer pouco antes da balada e ter a ilusão de que vai aguentar beber muito
- ir de salto alto se esbaldar e achar que vai dançar muito
- fazer a prospecção pré-balada errada e achar que vai conseguir o que quer
- beber um pint de Erdinger na pré-balada e parar de beber logo em seguida
- ir toda chicosa para festa de amigos desencanados

É coisa divertida:

- anos 80 na balada
- festa feliz com amigos felizes
- kit sobrevivência de balada com Engov
- ficar descalça e fazer cerimônia dos lavapés ao chegar em casa
- baladar usando shorts
- ver todo mundo bêbado dando risada da vida
- suar até molhar a blusa - e perceber que está todo mundo assim

Sim, sábado à noite foi muito bom.

22.11.07

Done

Noites de insônia. Dúvidas. Barulhos. Lágrimas. Brigas.

Calmante... e dorme.

No fundo, lá, no canto, depois do medo, da angústia, e da insegurança, está a certeza. A certeza de que o caminho rumo ao desconhecido é o melhor a fazer.

A certeza de que navegarei sem bússola, e me guiando pelas estrelas, e que elas vão me dizer onde está meu norte. A certeza de que as estrelas só aparecem à noite, e é à noite que sonhamos, então em última instância ao abrir mão da segurança da bússola estou, na verdade, optando por buscar um sonho. E não é para soar piegas, não. É para soar pé no chão. É para soar racional e consciente e consistente. E sim, o navio vai pegar turbulências, tempestades, tsunamis. Mas à noite as estrelas sempre estarão por lá.

Hoje acordei com aquela sensação gostosa de quentinho no peito. Falei com um especial, falei com outro especial, falei com uma especial também, e falei com o chefe. Depois falei para todos, que receberam a notícia como grande surpresa. E com grande sorriso. Palavras de apoio e abraços gostosos foram o que mais recebi hoje. Todo mundo com a mesma certeza: de que eu tomei a decisão certa. Os que ficam me falaram "corajosa" como uma bela admiração. Todos sabem que busco agora o caminho que é meu.

Vou inventar meu futuro e já volto. Vou ser feliz e já volto.

Não acho, definitivamente, que será fácil. Mas... a man's gotta do what a man's gotta do.

Pode ser que tenham lágrimas no último dia... afinal, quase três anos lá todos os dias.

Mas ainda falta um mês de aviso prévio para isso.

21.11.07

Ode à São Paulo

Só São Paulo mesmo para permitir que certas coisas aconteçam...

- só em São Paulo tenho livrarias como a Cultura do Conjunto Nacional, onde posso mergulhar em livros e me afogar no Visa Electron sem medo de ser feliz.

- só em São Paulo posso descer a Padre João Manuel em um 15/nov que mais parecia inverno, com frio e garoa fininha, em um final de tarde deveras melancólico, ouvindo jazz, e me sentindo em Londres. Ou em qualquer outro lugar que parecia não ser o Brasil. Desci eu e o capuz e a sacola com cinco livros, flanando, tomando cuidado para não escorregar na calçada, passando pelos cafés cheios e ouvindo o ruído de muitas vozes lá dentro, no quentinho. E eu lá fora, no frio. Senti a solidão e a melancolia na prática e na pele. E nunca foi tão bom ser uma paulistana solitária, no meio de tanta gente.

- só em São Paulo saio caminhando pela rua depois da IBM, chego ao Paraíso, encontro a Princess, vou a um cinema preferido (Reserva Cultural), vejo um filme dos bons (El Pasado), saio de lá aliviada ao perceber que eu não sou tão louca quanto a protagonista do filme, e que meu fim de relacionamento tem sido mais saudável e menos melodramático do que o fim de relacionamento visto no filme, volto para casa tendo ótimas conversas com ela que é minha irmãzinha, descubro que abriu um Starbucks lá, logo entre a Campinas e a Santos, e depois vamos jantar no japonês, comendo em excesso. Fora o mico de parar mal o carro em uma vaga na frente do restaurante, logo onde tinha mil mocinhos interessantes que poderiam virar nossos paqueras e no entanto viraram nosso deboche (a manobrista era eu).

- só em São Paulo saio de cidade nublada, em duas horas estou com os pés na areia e debaixo do sol, e em mais duas horas estou na cidade nublada de novo.

- só em São Paulo como hamburguer dos mais deliciosos no St Louis, sigo para a Roosevelt onde encontro boa amiga com uma boa cerveja, e encontro gente de todo o tipo, nerds, cools, cults, putas, artistas, escritores, gente do teatro, gente da rua, gente da vida. E daí ficamos lá dando boas risadas, até que resolvamos ir dar boas risadas em outro canto. E por um caminho mágico pela madrugada do centro de São Paulo chegamos ao Teatro Mars rapidinho. O carioca chega depois com mais tantas outras meninas, leves como fadas, sorridentes como crianças, e simpáticas como se fossem minhas velhas amigas. Daí a luz acaba e o baterista continua sozinho, porque mesmo sem luz a festa não pode acabar. Até que nós cansamos e resolvemos voltar e dormir... e qual não é a Lei de Murphy que, assim que pedimos os carros pro manobrista, eis que a luz volta. Ah, esse Teatro Mars, baladinha legal, músicos dos bons, buraco preto com cara de festa, andares e andares de andaime, cara de cidade decadente, e lá dentro pessoas tão jovens e animadas enxem a casa de luz.

- Simbora para a energia frenética do Mercadão. Domingo, duas da tarde, solão lá fora, multidão lá dentro. Multidão de tudo, de comidas, de pessoas, de barulhos, de coisas legais para bater fotos... multidão de vida. Só em São Paulo paguei de turista fashion e fui feliz.

- Outro feriado... dessa vez, só em São Paulo vi o museu que eu não conhecia. Fui no parque que eu só tinha ido no show dos Mutantes, e me diverti pacas andando pelos jardins, tirando fotos lindas, aproveitando bem aquela luz amarela, azul e verde do dia ensolarado, do céu, do prédio do museu, do jardim.

- Depois, só em São Paulo de novo, almocei com amiga do coração e amigos do coração que são quase meus amigos, e experimentei rabada, algo de novo nesse estômago.

Sim, tive papos cabeça, tive pensamentos perdidos, tive muitas insônia, tive brigas comigo mesma e com o mundo esses dias. Mas sim também, foi maravilhoso passar o feriado em São Paulo.

E afinal das contas, será que a gente seria feliz se viver fosse fácil?

Será que eu ficaria tão feliz no Parque da Independência se na noite anterior eu não tivesse passado mal de insônia e tomado calmente para poder dormir? Será que eu teria aproveitando tanto meu pé na areia sábado se na sexta eu tivesse assistido um filme que não trabalhasse com a dicotomia angustia/alivio de fim de relacionamento?

Obrigada, São Paulo, por me abrigar e por ser a minha cidade.
Só aqui para ter um feriado desses...

16.11.07

Suedehead - Morrissey

De sábado para domingo, 27/10 para 28/10/2007, na fila para sair da balada que figura entre as maiores aventuras da minha aventura, Morrissey canta Suedehead. Nós cantamos juntos, dançando na fila, entre os amigos dele. Sem olhar um na cara do outro.

De sábado para domingo, 10/11 para 11/11, na rua do centrão de SP, entre bêbados, mendigos, putas e lixos, estamos a caminho do carro. Ele começa a cantar Suedehead. Eu me empolgo e canto muito alto. Ele fala: "E não é que ela é uma Morrissey mesmo?" Nos abraçamos e ficamos cantando, no meio da rua. Um abraço forte que eu não sentia há tanto e tanto e tanto tempo... A sensação que eu tive é que durou uma eternidade. Só lá, o abraço, a saudade, a falta, a ausência, e sem beijo na boca, por respeito e consideração.
Eu choro, mas acho que a bebedeira dele não permitiu que ele percebesse meu choro. Ainda bem.
Momento lindo, bem com cara de final de balada, final de noite, final de relacionamento, final de filme.

Lagriminhas.

A letra? Para quem quiser...

Suedehead - Morrissey
Why do you come here?
And why do you hang around?
I'm so sorry I'm so sorry
Why do you come here
When you know it makes things hard for me?
When you know, oh
Why do you come?
Why do you telephone?
And why send me silly notes?
I'm so sorry I'm so sorry
Why do you come here
When you know it makes things hard for me?
When you know, oh
Why do you come?
You had to sneak into my room'just' to read my diary
It was just to see, just to see
All the things you knew I'd written about you
And so many illustrations
I'm so very sickened
Oh, I am so sickened now
It was a good lay, good lay
It was a good lay, good lay...

5.11.07

Grey Day

Acho que é porque:

- dias muito coloridos assustam a rotina, fazem com que ela fique assustadoramente cinza;
- poucas horas de sono me matam, e ontem de novo vivi o caos aéreo na pele;
- domingo no Rio e 2a em SP é um choque cultural deverash injuishto;
- hoje está chovendo e está frio;
- não aguento mais essa rotininha;
- a mediocridade me causa calafrios, e conviver com ela diariamente me é uma tortura do pior tipo...

... que resolvi me camuflar de algo que combine com asfalto, com chuva fininha e com um "não me encontrem" gritado bem alto.

Resultado?

Jeans, blusinha azul clarinho indo pro cinza, e blusa de capuz cinza claro. Sem criatividade, sem cor, sem eu, sem nada. Só assim.

Cenas do próximo capítulo:
- divagações sobre o caos aéreo
- minh'alma canta, vejo o Rio de Janeiro...