28.5.08

Blueberry

Vou contar para vocês a história do Blueberry, o carro mais fantástico, amigo e companheiro que poderia existir nesse mundo.
Blueberry, vindo ao mundo em março de 2002, caído nas minhas mãos de recém-motorista no mesmo março de 2002, batizado pela Lau poucos dias depois de ele estar em minhas mãos. Azul marinho ele é, redondinho, pequenino, e completo do jeito que eu gosto: direção hidráulica, rodas de liga-leve, ar-condicionado, travas elétricas, vidros da frente elétricos, quatro portas.
Não tem CD, porque eu gosto da idéia de deixá-lo na rua sem medo de que ele terá um vidro quebrado. Mas tem rádio, porque eu gosto de dirigir ouvindo música e cantando alucinadamente.
Tem alguns apetrechos e patuás. Tem um Ursinho Pooh que eu ganhei da Stephanie e gosto de deixar o Pooh lá porque assim eu sempre me lembro dela e de sua mãe, que me são tão queridas. Tem o Berry: um tigre daqueles de pelúcia pequeninos recheados de arroz, que fica pendurado no meu retrovisor e me acompanha com seu olhar. E tem o Blue, ursinho de pelúcia bem pequenino mesmo que tem aquelas coisas de plástico (cujo nome me esqueci) que grudam no vidro conforme a pressão que fazemos. Pendurados na parte de trás do retrovisor, os patuás: um olho grego de vidro bem bonito; um filtro dos sonhos, que está lá desde que eu ganhei o carro, porque eu queria porque queria um filtro de sonhos para proteger meu carro; e um terço, porque em todos os carros da família há um terço bento.
Blueberry já foi inúmeras vezes ao Morumbi ver o Tricolor jogar com um monte de gente dentro, e voltou ouvindo o Terceiro Tempo da Joven Pan. Blueberry já foi radical e já foi tranquilão, hora fechando e cruzando e fazendo todos os tipos de manobras absurdas, ora seguindo em frente serenamente sem medo de se entregar ao congestionamento paulistano. Blueberry, no começo de sua existência, morreu inúmeras vezes nas desafiadoras ladeiras de Perdizes.
É estranho e raro que eu seja passageira do Blueberry, e ninguém o dirige tão bem quanto eu.
Eu piso e ele responde, e então, com nosso ótimo trabalho em dupla, consigo fazer com que um carro um-ponto-zero pareça quase um um-ponto-oito. Temos uma interação sem precedentes na história dos automóveis e seus proprietários.
Blueberry já viu grupos de meninas atacadas antes da balada e depois da balada, já ouviu música alta com um bando de loucas cantando alucinadamente dentro dele, já viu o Edu parar na sarjeta, abrir a porta do carro, e passar muito mal mesmo logo ali no meio da rua. Blueberry é o carro oficial das voltinhas no quarteirão, de quando o trajeto entre a PUC e os Jardins não era o suficiente para todas as conversas que eu tinha com a Lau, e aí a gente começava a dar voltas no quarteirão sem destino nenhum, simplesmente para acabar o assunto.
Blueberry e eu adoramos pegar uma estrada, principalmente se ela estiver livre. Blueberry não tem medo de estrada de terra.
Blueberry já me viu brigar, rir, reconciliar, chorar, beijar, sofrer, falar no celular, fumar, cantar, conversar.
Blueberry testemunhou muitas coisas sozinho, mas a principal delas foi minha loucura de aniversário quando fiz 25 anos. Só eu e o Blueberry, às 4 da manhã, na 9 de Julho indo pro Cambridge. Só a gente sabia que naquele exato instante eu estava sozinha cometendo uma loucura e tanto.
Blueberry, tadinho, já se perdeu sozinho comigo na periferia de Embu, lugarzinho perigoso de verdade. E além das favelas do Embu, Blueberry já caiu comigo nas bocadas dos arredores da Estrada do M'Boi-Mirim, outro cantinho perigoso de São Paulo - mas nessa ocasião tinha mais gente no carro, muito embora todos tão embriagados quanto eu, após lendário churrasco do Strauss.
Logo no começo de sua existência, bati a roda numa guia quando fui desviar de um caminhão que me fechou, e o pneu fez PLUFT, um barulhão, e a próxima coisa que eu vi, um quarto do meu carro estava totalmente no chão, com o pneu estourado. Peguei o celular: "Paaaaaaaaaai, estourei meu pneu, vem me ajudar", aos prantos.
Blueberry pegou inúmeras vezes a Princess, para irmos para qualquer outro lugar, mas principalmente para irmos pro Image durante muitas sextas feiras seguidas em 2003 e 2004.
Só o Blueberry e a Princess, aliás, testemunharam um beijo bizarro e proibido e escondido e secreto de dezembro de 2007.
De manhã à caminho da IBM muitas vezes Blueberry brincava com seu amigo, Le Poison Blanche, que chegavam juntos ao trabalho - quero dizer à rua 7 do estacionamento da IBM, sob os cuidados atentos do Seu Antônio.
Blueberry já viu muitos amanheceres, muitos voltando da balada, e muitos quando eu ia correr no Ibirapuera bem cedinho e era tão cedinho que eu via o amanhecer do carro.
Blueberry já deu muita carona para muita gente, adoro isso de passar e pegar pessoas em um lugar e levá-las para outro lugar. É muito bom. É quase uma sensação de "pode deixar, eu consigo te tirar desse mundo" (mesmo que temporariamente).
Outro dia, no começo desse ano, Blueberry se encontrou com um caminhão de lixo e se estrupiou. Foi bem feio. Lá na delegacia, fazendo o B.O. que eu precisava fazer para acionar o seguro, o senhor PM me disse: "Dona Madame, a senhora está me contando que, ao sair da garagem da sua casa, bateu em um caminhão de lixo que estava passando no meio da rua e que a batida foi tão forte que o carro teve que ser guinchado até a oficina?" Rindo por dentro da situação patética e chorando por dentro da situação deprê, abaixei a cabeça e respondi: "Sim, senhor PM".
Blueberry é quem me entende em meu silêncio.
É meu cúmplice sem questionamentos.
Ontem eu deixei o Lindonildo na casa dele e foi passear de carro, curtir a noite paulistana e o barulhinho do motor do Blueberry, fumando um cigarrinho e pensando na vida. Eu estava muito feliz, e quis dividir com o Blueberry, quis que essa sensação de felicidade absoluta durasse mais um pouquinho, quis ouvir boa música dentro de um carro companheiro e acreditar que é verdade que eu sou feliz hoje, e que não adianta relutar contra isso. E que na verdade ficar pensando demais é uma forma de relutar, e que o que me basta hoje é sentir por todos os poros o frescor de coisas novas que 2008 traz para mim. Simplesmente sentir.

Destino: Tríplice Fronteira

- Puerto Iguazu parece uma cidade de faroeste com suas casinhas de madeira, suas ruas desertas, seu sol que racha. Faltou só a bola de poeira e feno rolando, que nem a gente vê nos desenhos animados.

- Essa coisa de Tríplice Fronteira é muito louca. De um lado do rio, um país; do outro lado, outro país; do outro lado, outro país. Praticamente na dimensão da terceira margem do rio que Guimarães Rosa tanto fez ficar famosa.

- Um Duty Free do tamanho de um shopping é algo deveras bizarro e muito, muito, muito louco. Assustador até. Templo do consumo elevado à décima quinta potência. Coisa estranha. Pessoas comprando frenéticamente, todas as variedades de tudo que se imagine: de relógios à vodkas, passando por perfumes e cashmeres. Impressiona e dá medo.

- O hotel era legal, mas não exatamente um master resort. Quase uma coisa tipo "décadence avec élegance". Deu para notar que na década de 60, 70, aquilo lá era um luxo sem precedentes. Hoje ficam os vestígios do passado, que não atualizam pro presente toda a imponência que existiu uma vez. De qualquer forma, a piscina do hotel era uma delícia; a varandinha do nosso quarto, com vista para a piscina, onde fumávamos e tínhamos papos cabeça, foi eleita por mim o melhor lugar do hotel; e as medialunas eram de um deleite sem precedentes. Me empanturrei.

- O céu noturno de Foz do Iguaçu não existe em nenhum outro lugar. Ainda mais quando estamos falando de noites de lua cheia.

- Ciudad del Este é o buraco do mundo. Lugar feio, fedido, barulhento, cheio de gente. Hordas de pessoas comprando sem limites com sacolas gigantescas, prontas para trazer muambas para o Brazil. Uma 25 de março muito, muito, muito, muito piorada. Policiais vagam com escopetas sem policiar nada, e sua não-ação faz com que aquilo lá se torne uma terra de ninguém onde tudo é permitido. Todos os tráficos de todas as coisas acontecem ao mesmo tempo agora. À luz do dia, a céu aberto. É impressionante. Nas calçadas, camelôs e suas tendinhas cobrem tudo e fazem sombra, formando corredores estreitos. Nas ruas, não há organização, não há paz, não há nada. Não há rua, na verdade. Nas portas das lojas, seguranças particulares ostentando escopetas ainda maiores do que as dos policiais. Em tudo quanto é canto, produtos de todos os tipos. Impressionante.

- Atravessei a Ponte da Amizade em um Mototáxi e me senti muito clandestina atravessando a fronteira de mototáxi. Maior legal. Experiência única.

- Itaipu é impressionante. As Cataratas são impressionantes. Região de megalomanias essa região da Tríplice Fronteira. Tudo é muito. As sensações são sempre extremamente acentuadas.

- A oportunidade de conhecer o diretor do Ibama para o Parque das Cataratas foi única. A casa do cara é animal, cravada em uma clareira na Mata Atlântica, cercada de mato, de animais, de rios. Uma delícia. Ele, a esposa, e a filha nos receberam como reis. O churrasco estava delicioso. As conversas, nem se fala. Tudo muito bom. Histórias de onças pintadas, jibóias e corais e cascavéis e quatis.

- Comer costela de chão, que eu nunca tinha comido, na sede da Associação dos Motoristas de Itaipu, que eu nem imaginava que existia, no aniversário de 50 anos do presidente da Associação, que eu não conhecia, foi demais.

- Conheci uma Foz que a maioria dos turistas não conhece, não fui ao Cassino na Argentina e não gastei milhares de dólares no Duty Free. Mas fiz a viagem que eu queria, do jeito que eu queria, conhecendo tudo e tendo experiência sempre muito agregadoras. É isso que faz dela uma ótima viagem: as experiências agregadoras.

- Comi muita carne e meu estômago se ressente até agora, três dias consecutivos de churrasco não é fácil para ninguém.

- Voltamos de ônibus argentino, leito, pagando quase a mesma coisa que pagamos pelo convencional brasileiro, com um conforto absurdamente maior.

- Amei.

14.5.08

Do Filme

- A atuação do Emile Hirsch está indescritivelmente fantástica e impecável.
- A trilha sonora está soberana.
- A fotografia é estupenda.
- A história é intensa em cada átomo de oxigênio, em cada gota d'água.
- As duas horas e vinte passam na sensação de 15 minutos.
- As reflexões são tantas que ainda não sei o que colocar aqui.
- Hoje na terapia falei desse filme, quase que tentando começar a digerir todas as idéias.
- Utopia é acreditar na existência de uma obstinação moderada?
- Já baixei a trilha sonora.
- Quero assistir de novo.

13.5.08

Filme no Cinema

Hoje vou ao cinema, assistir Into the Wild que há muito eu venho postergando de assistir.
As reações de quem viu esse filme são as mais variadas.
Um amigo querido saiu do cinema em tamanho choque que ele mal conseguiu falar no telefone para marcar um café.
Uma amiga gostou tanto que foi duas vezes.
Outra amiga saiu do cinema em êxtase.
E um bom amigo que vi na festa de sábado disse que a moral desse filme é que não nos apaixonamos por uma pessoa, e sim por cada pequena coisa que nos cerca no dia a dia.
Direção de Sean Penn e música de Eddie Vedder e paisagens deslumbrantes o filme inteiro. Sim, deve ser dos mais intensos filmes. Porque a história do cara por si só já é forte a valer.
Amanhã eu conto.

12.5.08

Pensamentos e Sentimentos: variados

- 3a no jantar a lula naquele spaghetti estava um absurdo de bom. Pena, muita pena, que não tomei caipirinha devido às minhas tonturas. Mas não há de ser nada: o restaurante estará sempre lá para quando as tonturas passarem.
. Deleite.
. Vontade.

-3a no Suplicy o Capuccino desceu queimando, doendo, engasgado. No good. Capuccinos não combinam com entrevistas desafiadoras. Perdi o deleite do Capuccino, mas espero de verdade não ter perdido o provável emprego. O diálogo foi bom, ágil, inteligente. Inteligível. Gente que faz, que fala, que me desafia. Aprender a humildade. Ver no outro uma provável não-humildade. Ver no outro uma bela máscara de entrevistador. A China e a Geopolítica, hoje e em 10 anos. Os celulares no Brasil. O Nobel do Yunus - da Paz. O Nobel do Al Gore - da Paz. O Nobel do IPCC - da Paz.
. Suor no rosto.
. Suor em tudo.
. Ondas de calor.
. Taquicardia.
. Angústia.

- 2a e a conversa com a acupunturista. Essa violência interna, louca para sair. Todo mundo ao meu redor sofrendo com isso. E eu, por dentro. Uma agulha aqui, outra ali. Conversa incômoda. Comprei cigarros para fumar na semana, quando tensa não abro mão da nicotina. Nossa, e a tontura desnorteante no final da tarde? Cai na lotérica. Não consegui girar a chave para entrar em casa. Atravessei a 9 de Julho de mãos dadas com uma estranha, de medo de cair. Reconheci meu medo. Fiquei frente a frente com ele. Apenas o primeiro de todos os medos a serem reconhecidos.
. Debate interno.
. Inquietude.
. Medo.

- 4a, dia dedicado ao meu Tricolor Paulista. Muita fila para comprar o ingresso. Muito trânsito para chegar no Morumbi. Ameaça de roubo do meu carro lá, na frente do Estádio. A cavalaria empacada na nossa frente na hora de entrar no Estádio. Tudo lotado na Independente. Um gol assim que entramos, já no final do 1o tempo, e a melhor companhia do mundo para um jogo no Morumbi. O jogo emocionava, as jogadas apertavam o coração, mas aquilo era um a zero e eles com dez, nós com onze. No segundo gol o Morumbi foi abaixo, os meninos caíram em cima de mim. A gente cantava insanamente, gritava, ria, e não se entendia mais. O Estádio era fumaça e muita gente, muito grito, muito barulho. Na saída, fui na frente, os meninos ficaram para trás. Saiu a Independente. Não tinha como eu fugir. Comecei a pular, fingi que estava em Salvador, me joguei no meio, resolvi curtir a bagunça ao invés de me preocupar com ela. Chegamos em casa sãos e salvos, felizes e vitoriosos.
. Apreensão.
. Glória.

- 5a e o show da surpresa, do presente de aniversário e de Dia das Mães. No palco, ninguém menos do que Johnny Rivers, o cara que faz minha mãe cantarolar pela casa. Nós quatro no segundo melhor lugar do show. Ela desacreditava na surpresa que tínhamos aprontado para ela, e nos olhos aquele brilho molhado de lágrimas se formando não deixava ela mentir: sim, conseguimos emocioná-la. Eu e o irmão éramos de uma faixa etária bem diferente do público do show em geral, mas sabíamos os Greatest Hits tanto quanto todos que estavam lá, devido ao CD de 20 Greatest Hits que temos. "Poor side of town" foi demais, "Take a good look at my face" também. Nós quatro com um lindo gosto melancólico daquele passado quando íamos sempre para Campos para nos curtir, e que Johnny Rivers costumava ser nossa trilha sonora preferida.
. Emoção de amor em família.
. Saudosismo.

- 6a e o dia tirado para descanso. Um pouco de raiva do mundo e das decisões precipitadas. Muitas saudades da yoga nossa de toda semana. Desmarca a noite, desmarca o almoço. Fica a manicure e a reunião com a sócia. Faz só o que você quer, respeita seus limites, os físicos e os psíquicos. Dorme cedo, menina. Dorme cedo, que sábado promete.
. Uma pitada de egoísmo saudável.

- Sábado de tudo ao mesmo tempo agora. Recital, almoço, café, festa. Recital que aquece o coração com aquela sensação de realização que todo mundo tem quando fecha um ciclo. Almoço de falas sussurradas faladas lentamente, mas sensação absolutamente ensurdecedora. Lá, no meio do restaurante, tirei minha armadura com vontade, expus meus sentimentos, expus meus medos, e pedi desculpas. Fiquei pelada e vulnerável, metaforicamente falando - claro. Compensou em excesso. Cafézinho de meninas de fofocas de lembranças de matar as saudades de sentir calorzinho no coração. Um abrigo, um refúgio, um cafuné, e estou nova. Pronta para ficar pelada de novo. E todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, então resolvi ir em uma festa para ser inesquecível. Inesquecível tudo, a vista do apê, as pessoas legais, a viagem solitária e gostosa só eu debaixo do céu, as músicas, as conversas, as sensações. Sabe a famosa chave de ouro? Pois bem, essa festa foi exatamente isso. Deixa, menina, larga lá atrás essa semana que acabou. Que ela não seja seu fantasma na próxima semana. Ela ficou bem lá, dentro do apê da Praça da República. A semana ficou sozinha naquela cobertura, ela debaixo do céu paulistano.
. Calorzinho no coração.
. Desafio.
. Abrigo.
. Chave de ouro.

- 5a eu aprendi que SMS definitivamente não serve para nada e que nada mais é do que uma enorme porcaria. Para mandar mensagens para confirmar coisas, para mandar mensagens fofinhas, para falar de saudades, para isso SMS pode até servir. Para ter uma DR, nunca. Para terminar um relacionamento, jamais. Para machucar alguém com um belo dum mal entendido, para isso sim, a SMS é a melhor arma. Também aprendi que afeto se demonstra, na lata. Eu, que sempre fui tão contida com medo de ficar over, descobri que ser contida pode machucar. Ué, mas não era para irmos devagar? Não era para não namorar? Pois é, sem medo de ficar over, saiba: afeto se demonstra.
. Libera esse afeto, sem medo de ser feliz.

- 4a de novo eu pude observar as conversas de fim de vida que minha avó tem com as primas dela nos chás da tarde mais deliciosos do mundo. Aprendi que mesmo aquelas velhinhas, que têm aparentemente tudo, têm na verdade uma melancolia impossível de ser descrita. Todas elas. Uma referência do que poderá vir a ser meu final de vida. A sensação reinante de bittersweet.
. Melancolia.

No sétimo dia Deus descansou.
Eu me cansei.
Festa em família aqui em casa das 13hrs às 22hrs, pelo Dia das Mães.
Os sentimentos estavam mais neutros, no entanto, já no presságio de uma melhor semana.

5.5.08

All at Sea, Jamie Cullum

I'm all at sea
Where no-one can bother me
Forgot my roots
If only for a day
Just me and my thoughts sailing far away
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
I'm all at sea
Where no-one can bother me
I sleep by myself
I drink on my own
Don't speak to nobody
I gave away my phone
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
Now I need you more than ever, I need you more than ever, now
You don't need it every day
But sometimes don't you just crave
To disappear within your mind
You never know what you might find
So come and spend some time with me
We will spend it all at sea
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea

Estou hoje o dia inteiro ouvindo essa música.
Minha sessão de acupuntura foi demolidora e edificadora ao mesmo tempo.
Preciso ficar um pouco quieta ao invés de sair por aí travando batalhas com pessoas que me querem bem.
Azedume e eu não se dão bem.
Agressividade e eu nunca tiveram nada a ver.
Aqui, no meu cantinho, e em silêncio. All at sea.

2.5.08

Que chuuuuuva!

Desobedeci.
Mesmo.
Com vontade.
Desobedeci minha acupunturista, que diz que friagem é o pior crime que um ser humano pode fazer com ele mesmo.
Desobedeci minha avó, que diz que umidade para a mulher naqueles dias é absolutamente proibitiva.
Desobedeci meus pais, que me deram dinheiro para ir de táxi na ida e na volta, para evitar a chuva.

Desencanei do frio que está lá fora, frio úmido e doído apertado.

Eram oito quadras a pé, da entrevista para a minha casa. Estava com uma capa de chuva francesa (u-lá-lá) azul-quase-cinza, lindona. Liguei a música no celular e coloquei os fones de ouvido. Capuz, uma respirada seca no coberto para pegar o fôlego, e vai.

As calçadas paulistanas são péssimas. Isso é senso comum. O que não se sabe ao certo é o perigo que elas representam em dias de chuva. Contabilizei sete quase-tombos. E seriam daqueles bonitos, dignos de uma videocassetada das mais engraçadas. Tem um tipo de pedrinha que é inimiga especial dos pedestres em dias de chuva. E a calçada com texturas, nesse esqueminha modernoso que alguns prédios de escritório têm aderido ultimamente, também é bem complicadinha. Então desci em um ritmo entre a caminhada e o samba, com muita dança, para não cair.

Passando por mim, uma mulher, louca, sem guarda-chuva, que dizia: "que chuuuuuva!", e eu imaginei de verdade a angústia dela, por ela estar descoberta.

Eu não. Ah! Eu tinha a minha capa de chuva... mas, sabe, ela ia até metade da cocha. Depois de umas quadras de caminhada, percebi que meu jeans na altura da cocha onde a capa acabava começou a grudar na perna. Percebi também que a sola de couro da minha bota foi deixando minha meia bastante úmida e fria. E por último percebi que o capuz cobre bem a cabeça, é fato, porque ele é farto. Mas ele é ligado à capa por botões, e o espaço entre o capuz e a capa, onde não tinha botões, foi aos poucos encharcando minha nuca. Também notei que eu deveria ter prendido meu cabelo em um coque, porque do jeito que ele estava solto, as pontas estavam ficando molhadas.

Mas mesmo assim, mesmo me molhando aos poucos e consideravelmente; mesmo passando frio; mesmo quase caindo; mesmo assim eu estava lá, desobedecendo com gosto e tomando chuva. E estava fazendo a coisa certa. Eu queria viver a rua paulistana em uma emenda de feriado chuvosa. Aquela coisa meio híbrida entre o dia útil e o dia de folga, entre a cidade vazia e a cidade cheia, aquela coisa meio híbrida que é a água que desce forte do lado da sarjeta, que não é asfalto e não é calçada, não é rio e nem enchurrada, mas molha de verdade.

Quando eu cheguei em casa, olhei no espelho do elevador aquela cena patética da calça ensopada, da capa que se mostrou boa só para dias de garoa, da bolsa pingando, das pontas do cabelo bem molhadas. Eu olhei e ri, ri bastante, ri deliciosamente, como criança que faz traquinagem. Eu estava molhada e com frio, mas estava absolutamente realizada.

Para não parecer uma pessoa totalmente insana, vale constar: assim que cheguei em casa tomei um bom banho quente.

Ainda no contexto do cachecol florido, o que eu tinha lá no fone de ouvido do celular ainda era a trilha sonora da Amèlie.

O Cachecol Florido

OU: Celebrando um dia chuvoso de outono frio

Ele sempre fica lá no meu armário e é o mais difícil de guardar ajeitadinho, porque ele tem umas flores de tricot que ficam penduradas e atrapalham tudo... ao mesmo tempo que eu tenho que ter todo o cuidado do mundo para as flores não fugirem e caírem, descosturadas por algum movimento brusco.

Verde, entre o bandeira e o militar, borda de tricot inteira em verde entre o abacate e o limão, galhinhos na mesma cor da borda, e flores penduradinhas nos galhinhos. Flores, de todas as cores: miolo amarelo e contorno vermelho, miolo roxo e contorno azul, são muitas as flores que ficam penduradas. E aí elas balançam com o cachecol, conforme eu ando. Praticamente um jardim ambulante. Bonito. Doce. Colorido. Verde.

É a graciosidades em um dia de outono. Ao sair para o café, e eu queria isso, queria leveza, queria cor, queria graciosidade, coloquei o cachecol. As flores balançavam. Parece que dá para sorrir mais fácil. Parece que o óculos vermelho fica mais legal. O frio fica mais quentinho. Cores em um feriado de uma São Paulo acinzentada.

Cheguei em casa e vi a Amèlie. Não porque eu estava triste ou sonolenta, mas porque eu queria ter em casa uma continuação dessa celebração ao outono. Agora, escrevo esse post ao som de sua deliciosa, por que não suculenta?, por que não graciosa?, trilha sonora.

Depois saí de novo. Uma simples ida à padoca, ver o jogo do Santos. O cachecol me acompanhava de novo. Bons papos, aquela coisa discutindo relacionamentos de homens e mulheres e suas complicações, e éramos quatro na mesa, dois homens e duas mulheres, e todo mundo com um vasto conhecimento em histórias bizarras, tristes, felizes, bem-sucedidas, mal-sucedidas, de relacionamentos.

Cheguei feliz de volta em casa. Já não chovia mais. O frio estava apertando os ossos. O cachecol estava no pescoço. As flores ainda balançavam. Me descobri feliz, simplesmente pelas pessoas especiais que me cercam. Me descobri complexa, como todo mundo no mundo, um mundo sem pretos e brancos, e sim cinzas e, principalmente, coloridos.

Ao dormir eu sorria. Quando acordei, fiquei com vontade de usar o cachecol hoje de novo.

28.4.08

Essa coisa querida que me acomete uma vez por ano

Bom, me acomete uma vez por ano, mas esse ano foi só minha segunda Virada Cultural. E esse ano me acometeu assim, fortemente... tanto que hoje estou só o pó, ainda com dores remanescentes.

Em itens e de forma bem rápida, alguns motivos porque a Virada Cultural desse ano foi demais:

- pulei de galho em galho. Em nenhum instante fiquei com as mesmas companhias por muito tempo. Isso é muito bom, me é muito natural. Juntei amigos também, em junções improváveis, muitos deles. Outra coisa que me é muito natural: juntar pessoas que sejam improváveis de se encontrarem. Ou que seja muito provável mas que nunca tenha acontecido.

- Cheguei lá sozinha. Andei um bom tempo sozinha. Parecia que no final eu precisava daquilo, para enteder que estava de novo na Virada, e que estava sozinha na Virada. Não deu medo. Deu mergulho. Imersão. Sim, eu era de novo parte dessa coisa bonita.

- Encontrei amigona e suas amigas, mas ficamos juntas por pouco tempo. O Samba da Santa Ifigênia e sua pegação eram, a meu ver, menos atraentes que o show da Gal.

- Curti a Gal com o meu irmão, lindo. Momento emoção 1: no meio da muvucona, cantar com todo mundo com as mãos pro alto: "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". E depois, em momento tranquilo: "while my eyes go looking for flying saucers in the sky". Momento emoção 2: no bis, Trem das onze e Sampa. Primeiras lagriminhas da Virada. De emocionar.

- Momento grande coincidência da noite: a minha amiga-e-sócia lá na minha frente, do nada, com o namorado querido. Pulei em cima dela e abração. Curtimos juntas a Gal.

- Nesse show da Gal, mil encontros não marcados, com pessoas queridas que já marcaram época. Um ode especial ao menino da corneta, que apareceu, que foi super carinhoso, que me deu um abração, e que está bem perdido nesse mundo. Um quê de carinho de irmã postiça mais velha, um quê de admiração de amiga, um quê de preocupação. É bem isso.

- Fomos, os quatro, até o Palco das Meninas. Marina de la Riva é linda, é simpática, canta bem, mas não sei se empolgou não. Mas eu curti. Curti mais do que o show dela, reencontrar dois amigos que não via há tempos. Curti mais do que isso a coincidência que uma amigona estava por lá também, e daí ela se juntou à trupe.

- Pausa para xixi e comidinha. Mas é a Virada... as pessoas diferentes estão por todos os lados. As pessoas conhecidas também. O centro fica lindo, vivo, cheio. Todos os estímulos ao mesmo tempo agora. Todas as artes por todos os lados. Barulhos, rostos, vozes, músicas, teatro, palhaços, gays e velhinhos, punks e famílias. Todos lá ocupando, democraticamente, com muito respeito e muito felizes, o espaço público. É muito lindo.

- Enfrentamos a multidão, achamos (a R$ 6,00!!!) uma latinha de Smirnoff Ice (ótimo para quem quer administrar o xixi), entramos na bagunça para ver o Zé. Mas era fé e só. Fé de que ele estava lá em cima e que aquilo não era um disco. Porque na verdade não dava para ver... Era fé e festa... dança empolgante com "Frevo mulher", mãos aos céus com "Vida de Gado", e novas lagriminhas.

- Dois abandonaram o barco. Ficamos em três, eu, meu amigo e vizinho querido do peito, e a amiga querida que a gente demora pra se encontrar. Fomos pro palco do Arouche, velhinhos fofos dançando sambinhas, sentei porque as pernas doíam muito. Na mais linda prova de democracia, os velhinhos dançando se misturavam com os gays que estavam em todo lugar nesse palco.

- Tudo muito paulistano. Aliás, nesse hora começamos a exaltar São Paulo. Parece que a Virada Cultural nada mais é do que isso: um ode muito lindo à essa cidade maravilhosa onde vivemos. É a população às ruas, para usufruir delas, usufruir da cidade, conviver de verdade em clima de festa e de felicidade pacífica com a diversidade. "Eu verdadeiramente gosto de morar aqui" e "Essa realmente é a cidade que eu escolhi para mim" foram as frases pronunciadas à exaustão por um trio de uma bêbada, uma cansada, e um recém-chegado à festa. E esse trio se deu muito bem, de verdade, por mais improvável que seja essa afirmação seja.

- No palco da Canja Rock Blues, pegamos o final da palhinha do Kid Vinil. Minhas pernas já doíam tanto que até anestesiadas elas estavam. Mas aquela boa música foi fundamental para eu ver que ainda tinha pique para os Mutantes. Nisso, a amiga que estava alegrinha seguiu rumo pra pista de eletrônica. Eu e o meu vizinho fomos pros Mutantes.

- De novo, era fé. Fé que tinha um Mutantezinho sequer lá em cima. Ficamos brincando do "80% menos": se eu tivesse um desejo pro gênio da lâmpada agora, desejaria que aqui tivesse 80% menos pessoas do que tem e que a gente estivesse sentado em poltronas bem confortáveis. Mas cantar Panis et Circensis com ele foi uma experiência única e memorável. E saber que essa foi a 1a das músicas que mudou a vida dele. De novo, lagriminhas.

- "Zero dois, pede para sair!". Eu pedi para sair às 5 da manhã, e estava no centro desde oito da noite. Tudo doía e os sintomas físicos se confundiam de forma absurda: dor na perna, dor nos braços, fome, sono, rouquidão, sensação de sujeira. Desisti do Cachorro Grande ao meio dia de domingo. Precisava dormir um pouquinho mais.

- Estava de volta às 14hrs, pra ver o mestre Arnaldo Antunes. Ainda com as dores remanescentes da noite anterior. Com pique total, no entanto. Domingo lindo de sol, tinha que ser curtido na Virada mesmo. A companhia, de um só e não de uma trupe mutante, não poderia ser melhor, no entanto. Anyways o showzinho não foi muito bom. Foi bem desanimador. Mas, de novo, encontrei gentes queridas: meu ex co worker de quem morro de saudades, minha prima-amiga-irmã, e o namorado querido da amiga-sócia.

- Zanzamos juntos com outro recém casal. Delícia. Dia lindo. Virada linda. Centro lindo. Todos lindos. E felizes. E de óculos escuros.

- Show do Lobão. Inesquecível. Muito bom mesmo. Cantamos juntos "Noite e Dia": "Você está me convidando, menina quer brincar de amar". Final de tarde, céu azul, centro cheio. Fecho de ouro para a Virada Cultural. Voltamos para casa, porque o corpo pedia arrego e não dava mais.

- Logo depois de sair da República, meu botão on/off foi para o off radicalmente e nada mais eu aguentava. Parecia que não era mais eu, que era um corpo sem dono, sem obedecer mais nada. Dormi, profundo, das 21.30 de ontem às 08.30 de hoje. Mas a satisfação era inenarrável. O gosto doce de poder falar com água na boca: "sim, eu curti tudo que eu pude dessa Virada Cultural".

- Disseram a Gal e depois os Mutantes, em Baby, quando todo mundo engrossou o coro de um jeito bem bonito: vivemos na melhor cidade da América do Sul. Não me resta mais nem uma dúvida sequer de que isso é verdade.

25.4.08

Minhas últimas sextas feiras

Minhas três últimas sextas feiras (contando com hoje) começaram exatamente desse jeito.

Sabe criança pequena que acorda no dia do aniversário, ou no dia de Natal, e daí tá na cama e de repente abre o olho rápido e toma um susto?
- Nossa, hoje é meu aniversário!
- Nossa, hoje é Natal!
A criança senta na cama rápido, fica com os olhos meio esbugalhados, querendo acordar e acreditar que é verdade, que a data chegou mesmo.
De verdade! Chegou o dia!
A criança pula da cama, sai correndo do quarto, "Bom dia, dia!", ela grita, "Bom dia, dia!" pela casa, que bom que chegou o grande dia!
Ah, a criança está muito feliz!
Agora, fica com tremeliques esperando chegar a hora. Tremeliques contando os segundos para a festa de aniversário, contando os segundos pelo presente do Papai Noel. Tremeliques, a criança não pára, anda de um lado pro outro, corre, faz muita coisa, o corpo não pára, a cabeça não pára.

Fiquei assim para receber minhas amigas cariocas (penultima sexta).
Fiquei assim para tomar uma breja bacana (ultima sexta).
Estou assim hoje porque chegou a Virada Cultural.
E pensar que fiquei um ano esperando por isso... e aí... chegou...

24.4.08

A over reaction do desespero das pequenas coisas

- Não, eu não pago R$ 10,00 na primeira hora de um estacionamento no Itaim pro almoço. Por princípios. Estraguei uma surpresa que seria bacana porque bati o pé. Almoçamos no Kinoplex ao invés de um restaurante legal "de vanguarda" que ele tinha escolhido. Só porque eu bati o pé. Resultado? No Kinoplex o estacionamento foi R$ 9,00 por duas horas de estacionamento. E ele não estacionava o carro em shopping por princípios também. Merda.

- Não tem jeito. Por mais que eu tente não fumar durante a semana, os cigarrinhos pré e pós terapia são sagrados. Assim como todos os outros no Morumbi, em jogo tenso. Resultado? Um maço, entre o final da tarde e uma da manhã. (ps.: sim, terça feira eu fiquei o dia inteirinho sem fumar, e nem falta eu senti)

- Defina "boa companhia". Defina "relações escapistas". Defina "se proteger". Depois vem me contar.

- Laços de sangue a gente não escolhe, né?

- Alguns laços de sangue a gente escolhe, sim.

- Meu time está jogando um futebol de merreca. Ontem o jogo, mesmo no Estádio, deu sono. Dizem que vai se recuperar, já que agora pode ficar um tempo só focado na Libertadores. Estou bem cética. Sempre acompanhei Libertadores bem de perto e nesse ano, nem a torcida tá empolgando.

- Adoro abastecer meu carro e, com o frentista, abrir o capô. Ver óleo, ver a água, calibrar o pneu.

- Acho que vou pegar mais responsabilidades do meu carro para mim, já que gosto disso e quero aprender mais sobre isso.

- Mas por enquanto ainda serei feliz que meu pai declare meu IR nos próximos anos. Essa responsabilidade, ainda deixo com ele.

- Ontem foi Dia de São Jorge. No Parque São Jorge, os Corinthianos quebraram a estátua do Santo. Será que eles nunca ouviram: "cuidado com o andor que o santo é de barro"?? Aqui em casa somos todos devotos do Santo Guerreiro. Fiz minhas boas mentalizações antes de dormir. Ogum.

- Será que o padre estava mesmo planejando suicídio?

- AAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaa que tem muita coisa nessa Virada Cultural!! Muita muita muita coisa... que saco ter que ficar escolhendo assim, tanto... Nessas horas me descubro uma pessoa que não sabe bem priorizar...

22.4.08

Da Fé no Amor, do Medo do Amor

Alguns diálogos esse feriado, todas as matutações do mundo sobre o tema, óbvio que nenhuma conclusão.

No bar.
Da amiga namoradeira para a amiga que sempre ficou solteira. Só que agora a amiga namoradeira não namora há muito tempo, e a amiga solteirona está (quase) no seu segundo namoro.
"Outro dia fiz uma relação que eu nunca tinha feito. Percebi que desde que meus pais se divorciaram, eu nunca mais consegui namorar. Acho que deixei de acreditar no amor, quando nosso exemplo de amor mais próximo se esfarela".

No cinema.
Sobre a torta de BlueBerry que sempre sobrava intacta ao final do dia.
"Nunca comeram a torta de BlueBerry. Mas eu continuarei fazendo ela todos os dias, todas as vezes, porque algum dia sempre chegará alguém que vai querer comê-la. Alguém que vai de verdade escolhê-la."
E no fim desse mesmo filme, a voz em off falava:
"Porque às vezes tudo o que a gente tem que fazer é atravessar a rua sem olhar para trás".

No quarto.
Na música do Wilco, que tem cara de música de final de filme melancólico e escuro.
"True love will find you in the end
You gonna find out just who's your friend
Don't be sad, I know you will
But don't give up until
True love will find you in the end
This is a promise with a catch
Only if you're looking can it find you
True love it's searching too
How can it recognize you
Unless you step out into the light, the light
Don't be sad, I know you will
But don't give up until
True love will find you in the end"


Engraçado esse único sentimento e tantas reações diferentes e opostas embutidas nele. Engraçado principalmente porque, quando paro, racionalizo, penso nas minhas próprias reações, eu teria mais medo do que fé. E eu não acharia que compensa. Mesmo.

Na Estrada

Não viajei no feriado, só passei o domingo fora de São Paulo. E é engraçado isso, foi só um dia, mas parece que foi todo o descanso que eu precisava e merecia... Pegar a estrada faz toda a diferença na minha vida. É uma das coisas que eu mais gosto...
Gosto disso, de estar no carro, da sensação de estar indo para algum lugar, de mudar de paisagem, de ver a estrada compriiiida na nossa frente. Gosto do vento, do cheiro de mato. Gosto do céu azul, e de ver o céu lá longe, ver que em algum lugar está chovendo. Gosto de placas com nomes de cidades estranhos, e gosto de placas com kilometragens: 32 km para Santo Antônio do Pinhal. Tenho uma paixão especial pela Serra da Mantiqueira e pela vista que se tem do Vale do Paraíba para a Serra e vice-versa. Até hoje me lembro daquele julho de 95 quando subíamos para passar uma semana com a Carol K. no nosso carro e eu perguntei pra ela: "não está nítido?", e ela não sabia o que era nítido e ficou rindo do meu vocabulário, tão rebuscado para uma pessoa de 12 anos.
Adorei quando ficamos 2 dias na ida e 2 dias na volta só na estrada, para passar o carnaval em Itacaré. Não fico cansada na estrada, adoro, ouvir música, filosofias de asfalto, moda de viola, cochilos gostosos. Foi na volta da Bahia que soltei uma das minhas maiores pérolas: "acho que já fui uma vaca", quando fiquei feliz de sentir o cheiro de capim já na região de Governador Valadares.
Pegar uma boa estrada é a melhor coisa para desanuviar das idéias.
Chega logo, Corpus Christi, que eu quero ir para Foz!

17.4.08

Reflexões na ponta da cabeça

Hoje eu fiquei de ponta cabeça na aula de yoga. Quando a gente fica de ponta cabeça, já me falaram isso lá na yoga milhares de vezes, a realidade é vista de outro jeito. Literalmente, de ponta cabeça.
A gente tem que fazer mais força para respirar e para impedir que o sangue vá tão rápido assim para a cabeça. Tem que manter tudo funcionante, mesmo que de outra perspectiva. E na yoga a respiração é a forma de corpo se ligar com a mente, então respiração com esforço de ponta cabeça, é na verdade tudo de ponta cabeça.
E é engraçado, que às vezes mesmo quando eu estou de pé e está todo mundo ao meu redor de pé também, eu sinto que estou de ponta cabeça.
Isso significa que quando eu estou de ponta cabeça e todo mundo continua de pé, então eu estou de ponta cabeça ao quadrado?
Ou será que é quando estou de ponta cabeça e os outros estão de pé que eu estou tão de pé quanto eles, na mesma perspectiva?
Fiquei pensando muito nisso... daria para passar uma noite inteira de buteco discutindo qual perspectiva que eu tenho que é igual a daqueles todos outros.

Outra coisa que pensei: hoje, depois do almoço, com o cafézinho, acendi meu "cigarrinho na janela" sagrado. Mas foi assim que parei de fumar a primeira vez e devo parar de fumar a segunda vez: se a respiração é nossa forma de conectar corpo e mente, não faz o menor sentido entupir esse canal de nicotina. Ou seja, yoga e cigarro não convivem. Por que eu insisto nisso há seis meses, mesmo fumando pouco e mesmo parando de fumar por um bom tempo?

E última coisa que pensei hoje quando fiquei de ponta cabeça na yoga: cada vez mais essa posição tem se tornado mais confortável e menos angustiante para mim. É absolutamente relaxante. Será que ponta cabeça é minha posição natural e só aos 25 anos eu descubro isso? Vou precisar fortalecer muito abdomen e costas para poder viver minha vida de ponta cabeça, isso me preocupa.

E frase final da fábula da yoga hoje:
somos marcianos em uma terra de medíocres.

16.4.08

Muito bom estar lá

Engraçado isso, porque eu não convivo muito com ela, mas se me perguntarem eu obviamente a incluiria no meu grupo de amigos Top Top Queridos e Especiais e Estrelares. E aí ela entregou o mestrado dela dia desses, e ontem defendeu. Eu não pude ir na defesa, mas pude ir ao jantar. É engraçado isso, eu já tinha falado com uma amiga minha, a melhor forma de se conhecer pessoas novas é ir para um lugar onde a gente só conhece UMA pessoa. No caso, eu conhecia só a recém mestre. Mas até que me dei bem, consegui superar a timidez e conversar bem com as pessoas. O grande lance é que a conversa lá era "um nível acima". Gente muito boa, muito gente fina, risadas inteligentes e olhares mais ainda, conversas bacanas, poesia, sexo, Febem e adolescentes criminosos e tudo o mais. Deu preu me sentir à vontade com eles em meia hora de convivência. E aí é muito aquela coisa da boa energia circulando também, não basta só a conversa ser boa, tem que rolar boa troca de energias. E ontem lá isso tinha de sobra. Privilegiada minha amiga Mestre, que além de Mestre, linda e inteligente, é também cercada de pessoas tão especiais. E além de privilegiada e de mestre, ela é um dos "parabéns" mais enfáticos e verdadeiros que eu já pude dar para alguém. Oh yeah, baby, paguei um pau.

Quando as estrelas começarem a cair, it makes me kinda nervous to say so

Estava ouvindo Angra dos Reis, da Legião, ôpa coisa linda de se ouvir. Lembrar de quando eu tinha quinze anos e era legal, nas viagens da escola, sentar em uma rodinha de violão e ficar cantando a noite inteira debaixo de um céu estrelado.

Mas prestei atenção nisso daqui:

Mesmo se as estrelas
Começassem a cair
A luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
Você visse o nosso corpo em chamas!
Deixa prá lá...

Quando as estrelas
Começarem a cair
Me diz, me diz
Pr'onde é que a gente vai fugir?
(Angra dos Reis, Legião Urbana)

Pode até ser auto-sabotagem, mas está tudo tão legal até agora que eu fico me perguntando se fosse o fim chegando cedo, se as estrelas começarem a cair... Para onde é que eu vou fugir?

Dez anos depois, a música das rodinhas de violão, aquela euforia adolescente, bochechas rosadas depois de um dia inteiro estudando o mangue debaixo de sol, tudo isso muda para uma melancolia adulta. Uma melancolia que tem medo de acreditar simplesmente que as coisas estão dando certo. Uma melancolia de entrega ressabiada. Medo de não ter amanhã o que eu tive ontem.

E o engraçado de tudo isso é que em primeiro lugar eu não tenho motivo nenhum por enquanto de acreditar que o que eu tive ontem eu não terei amanhã. E em segundo lugar que historicamente a vida vem me provando que as coisas, mesmo que aos trancos e barrancos, se apresentam em uma curva ascendente e não descendente. Ou seja, que mesmo que se amanhã eu não tiver o que eu tive ontem, pode ser que o que eu tenha amanhã seja ainda melhor.

Basta acreditar nisso para assumir aquele sentimento que eu tô fazendo questão de manter escondidinho, longe dos meus holofotes, longe dos holofotes dos outros, longe de assumir qualquer coisa.

E aí, para assumir, melhor coisa é a música do Beck. Grande Beck, letras inteligentes e dançantes, aquela coisa encantadora do perdedor e do cara que está descobrindo suas "Sexxlaws".

What if it's wrong
To pray in vain?
(...)
I think i'm in love
But it makes me kinda nervous to say so
I think i'm in love
But it makes me kinda nervous to say so
Really think I better get a hold of myself
(Think I'm in Love, Beck)

14.4.08

Eu tive um sonho, vou te contar

Essa noite sonhei que ele me pedia em namoro cantando "Minha Namorada", do Vinícius, e depois me dava 12 dúzias de rosas vermelhas cultivadas nos morros no norte da Albânia por freiras virgens.

Daí eu acordei assustada.

Lá fora, milhares de trovões e raios, parecia que tinha raio aqui dentro do meu quarto.
Aqui dentro, uma barata debaixo da minha cama, já que não tínhamos conseguido matar ela ontem.
No peito, aquela coisa misturada cheia de coisas.
No feriado eu não quero ficar aqui de novo, não.

6.4.08

Por que não um bom final de semana?

Começou com aquela sexta quando meus hormônios eram maiores do que eu, e o DVD com chocolate entre meninas virou uma noite divertidíssima no Santo Grão Café. Decidi que sábado seria um bom dia. E foi. Dormi muito, o suficiente para acordar bem humorada e com os hormônios diminuídos. Li o jornal tranquilamente no café da manhã, tomei um banho comprido, lavei o cabelo com calma e fiquei cheirosa. Recebi um telefonema bacana, continuei me arrumando, arrumando tudo, o quarto, a casa, a vida, o cabelo, a lente de contato. Arrumando até o abraço com a mãe. Daí ele chegou e a gente foi até lá onde se arruma a vida espiritual. E que conversa gostosa, de novo, só para variar um pouco! Quero sempre. Voltamos para São Paulo após uma ótima tarde. Escolhi o lugar errado pro almoço, e ficamos passando frio no Pé no Parque. A companhia, no entanto, compensou todo o frio do mundo. No carro voltando, uma conversa que indica que eu posso ter estragado alguma coisa simplesmente por medo. Enfim, nem tudo está perdido e eu ainda me redimirei. Cheguei em casa e tivemos alguns contratempos entre a garagem, o elevador, o carro dele e a minha casa. Aqui, um papo agradável com bons amigos dos meus pais, e meu irmão estava visitando também. Ótimo. Um cochilo gostoso depois, com a casa vazia, e a saída de visual caprichado para lugar legal com gente que eu gosto muito e com papo bacana. Dois casais e eu, ouvindo jazz. Um Bloody Mary, dois Bloody Mary, três Bloody Mary. Três Bohemias depois também. Um ataque de cinco minutos e a volta para casa, ainda bebinha. Dormi cedo, lá pelas 3, e acordei tarde, depois da uma. Belo dia de preguicite aguda esse domingo, e não coloquei a cara para fora de casa. Almoço em família, passa a folha de uva por favor, futebol de domingão decidindo as semifinais do Paulista, São Paulo ganha bonito e Corinthians perde de virada, e então Elizabethtown. A frase final do filme? "Those who risk, win". Preciso falar com ele urgente de novo, arriscar um pouquinho, e ver se dá para ganhar. Pôxa, Elizabethtown é um filme muito bom. Eu já tinha assistido, e sempre gostarei de assisti-lo. Agora, preguiça de novo, minha mãe está assistindo a reprise de Lost no AXN e eu acabei de decidir que vou comprar pão francês na padoca porque, com a linguiça que temos aqui, posso comer Choripán.

Por que não um bom final de semana?

4.4.08

Noite de Menininhas

Hoje:
- meus hormônios estão maior do que eu;
- mesmo o que deu certo, deu errado;
- o friozinho contribui pra essa sensação;
- a carência também;
- alguma saudade também;
- saí da mesa do jantar muito mais cedo do que o normal, e voltei pro meu quarto pra dormir;
- esperando meu amigo ligar e ele não ligou;
- e fiquei assim, debaixo das cobertas, meio dormindo, meio acordada;
- ouvindo Ryan Adams, seu violãozinho e sua gaita como deliciosas companhias pra uma noite meio deprêzinha.

Daí a Princess ligou e me acordou. Vamos fazer alguma coisa, dizia ela, e meu sono era maior do que eu pra responder. Depois de 10 minutos, liguei pra ela de novo. Ela deu risada da minha rapidez e eu dei também, provavelmente essa sendo a primeira risada realmente gostosa do dia.

Perguntei:
Princess, quer ver comédia romântica e comer chocolate?
Você vai aguentar eu, meu bode e meus hormônios?
Vamos brincar de ser felizes e de acreditar que vai dar tudo certo?
Ela disse que sim para todas essas perguntas.
Perguntei se ela queria que eu levasse ovo de Páscoa, ou se ela tinha lá. Ela disse que ela tem lá, e que assim é melhor porque pelo menos os ovos dela vão embora mais rápido.

Ok, eu disse, em meia hora aí.

E concluí, mais feliz do que ir na casa dela ver DVD feliz e comer chocolate, é saber que do lado de lá do bairro tem alguém que gosta de mim mesmo quando eu estou mal humorada e que vai me dar colo e me fazer rir, tudo ao mesmo tempo agora.

Ai, como eu amo essa minha irmãzinha.

3.4.08

Contagem Regressiva

Já estão divulgando a Virada Cultural desse ano.
Promete, parece.
Gente boa toda junta, concentrada em 24 horas de muita coisa entre sábado e domingo, 26 e 27 de abril.

Ano passado foi minha primeira Virada Cultural. Noite histórica. Tudo que poderia ter acontecido, aconteceu. Novela mexicana mesmo. Muitas boas músicas e muitas boas apresentações, andarilhos em grupo gigantesco pelo centro de São Paulo, brigas, intrigas, porres e choros, beijos estranhos, beijos na boca, muita risada, muita zueira, xixi em banheiros químicos, e muitas boas fotos. Noite completa. Entre tudo e todos, a cerveja. E de vontade superior, a certeza de diversão. E de força gravitacional, a ressaca - forte, física, moral - do dia seguinte.

Enquanto isso, não muito longe de mim e de toda a novela mexicana (embora mexicana, foi pacífica), meu irmão fugia de balas de borracha e do gás lacrimogênio na Praça da Sé. Não, a violência na Sé não foi maior do que todo o resto da Virada, que aconteceu cheia de méritos. Mas nunca é bom esquecer esse fato, essa violência gratuita, tudo aquilo de confusão no meio da multidão.

Esse ano quero repetir a dose. Não vejo a hora de ter tudo de novo. Serão diferentes as pessoas, mas será tão forte quanto a diversão. Talvez a ressaca de domingo esse ano tenha que ser um pouco menor, porque domingo quero estar lá na Virada também.

A Prefeitura está caprichando no evento. Gente muito fera estará lá, muito concentrada também. Fica todo mundo que nem barata tonta naquele centro deliciosamente cheio na madrugada. Não sabe onde ir, porque são todas as boas opções ao mesmo tempo e agora, sempre, a todo minuto. As pernas cansam de zanzar tanto. A cabeça cansa de tanto estímulo por todos os lados.

Mas é coisa bonita de ver, o centro lotado, seguro, bonito, e as pessoas felizes. De casais de velhinhos a famílias com crianças, a turmas de jovens. E em todos os grupos, gente de tudo quanto é canto. Do centro, da periferia, dos bairros nobres, dos bairros pobres. Punks e descolados, GLS e a turma do Hip Hop. Todo mundo lá, andarilho do mesmo jeito, na mesma noite, no centro.

Não vejo a hora de chegar a Virada Cultural esse ano. Faço contagem regressiva desde o ano passado. É festa bonita de se ver, a Paulicéia ainda mais desvairada. Música que São Paulo merece, dança que São Paulo quer, semana difícil e um final de semana histórico que compensa tudo. Ô coisa linda de acontecer... coisa linda linda linda.

Apenas como não poderia deixar de ser, uma crítica política. Esse ano o Kassab simplesmente dobrou o investimento na Virada, com relação ao ano passado. Óbvio que esse aumento no investimento tem relação direta com o ano de eleição. Isso é coisa feia de ver. Coisa muito feia. Outra crítica política: os caras excluíram os Racionais para esse ano. Fico me perguntando se é medo que se repita o mesmo absurdo do ano passado, quando a PM pulou em cima da galera com tudo.

De qualquer forma, é isso aí.
26 e 27 de abril, aquela coisa histórica e gostosa: Virada Cultural.
Tô na contagem regressiva.
Não vejo a hora.