"Dizia ele estou indo para Brasília, nesse país lugar melhor não há".
E foi-se, desde o começo do ano.
Mantivemos contato por um tempo, depois paramos de nos falar, depois voltamos a nos falar bem menos do que antes, e nesse final de semana ele esteve aqui. Aparentemente esse reencontro estava agendado desde que ele esteve aqui em junho e eu não consegui vê-lo, por estar viajando.
Mandei mensagem de texto na 4a, do show do João Donato, falando que estava no show do João Donato e que tinha me lembrado dele. 5a recebi um email de resposta, e assim foi para marcarmos nosso reencontro essa semana. 6a liguei para ele duas vezes e não obtive sucesso, então deixei um pouco para lá, mas domingo ele me ligou e enfim conseguimos marcar que nos veríamos no Bar do Sacha.
Desde que eu tinha decidido que gostaria de reencontra-lo, a única idéia na minha cabeça era muito simples e eu não quis que ela evoluísse muito acima disso (ou seja, não fiquei fritando os neurônios). A idéia o tempo todo foi: estou com saudades e quero encontrá-lo. Ponto.
Pois bem. O fato é que bate sim friozinho na barriga, no carro a caminho do Sacha, de pensar como será o reencontro.
***
Ao chegar no bar, encontro um ambiente mais do que agradável e extremamente carinhoso. Pessoas que há muito eu conheci quando namorávamos, e que eram amigos queridos e especiais, estavam lá. E foi ótimo encontrá-lo, especialmente ele. Ao me abraçar, ouvi de cara "Nossa, como você está cheirosa!" e consegui fazer uma pequena festa com cada um na mesa, de saudades legítimas. Tudo era matar saudades na tarde de ontem. Depois dos abraços em cada um, e da troca de sorrisos e gentilezas, e era tudo de fato bem legítimo, sentei-me ao lado dele (essa coisa meio solene de ser ex-namorada).
Não sei explicar em palavras o que eu senti ao seu lado. Mas era alguma coisa muito boa e muito forte, com certeza. Ficamos conversando da vida, falando mais ou menos por cima o que estava acontecendo, sabíamos que o tempo era curto e que tínhamos que aproveitar ao máximo aquilo tudo. Mas o que eu levo desse reencontro não são as conversas, e sim os olhares. Os olhares, o cuidado, o carinho um com o outro.
Sua mão oscilava entre um carinho gostoso nos meus ombros e cabelos, ou então pousava, carinhosa, nas minhas pernas. Às vezes ele até começava a apertar um pouco minhas pernas, e quando se dava conta me olhava e falava: "às vezes eu até esqueço!". Daí tirava a mão, e não muito tempo depois ela voltava a pousar carinhosamente na minha perna. E eu ficava feliz por dentro.
Eu fiquei feliz com tudo. Fiquei feliz em ver o olho sorridente, a boca sorridente, em encontrá-lo extremamente bem e feliz - embora mais gordinho também. Em ouvir suas histórias de cantos do mundo para os quais ele foi esse ano, e do projeto que ele chefia.
Fiquei feliz por matar as saudades, por ouvir a voz.
Fiquei feliz por sentar perto e por sentir o bom e velho perfume dele. Mais do que o perfume, fiquei feliz por sentir o cheiro.
Fiquei feliz por fazermos brincadeiras que desmistificaram alguns entraves do nosso final de namoro (ele: "conheci esse meu amigo naquela festa em que a gente brigou feio, lembra?" eu: "festa que brigamos feio? que festa? não lembro não, não sei do que você está falando... você lembra de alguma festa que brigamos feio?", diálogo seguido por uma gostosa gargalhada cheia de cumplicidades).
Fiquei feliz por ser hiper bem recebida pelos amigos dele.
Fiquei feliz porque ele me olhava como se eu tivesse voltado a ser uma das pessoas mais importantes na vida dele, mesmo que só por uma horinha, em uma tarde de domingo ensolarada.
Fiquei feliz porque mesmo sem vê-lo por seis meses, parecia que a gente não se via por quinze dias só. O papo estava bom.
Recebi elogios dele, do cabelo, da pele, da cara de feliz, do corpo mais magro. E elogiei ele também. É muito bom ver uma pessoa de quem a gente gosta estar feliz. Isso me realiza, me deixa feliz também. Cada vez mais fica mais claro que São Paulo nunca fez bem para ele, e não adiantaria forçar isso. Ele está bem em Brasília, aquela sim é a sua casa.
Ao me despedir, uma amiga dele também me elogiou. E ele disse: "acho que é o fato de não estarmos mais juntos que está fazendo bem para ela". Todos demos risadas. E eu só queria ter dito que não é a presença ou a ausência dele, e sim todas as mudanças que esse 2008 vem trazendo. Mas ficou intalado, e o máximo que eu fiz foi soltar um risinho sem graça.
E aquele abraço de despedida foi delicioso. Lembrei-me bastante do meu "ato de apertar mais gostoso do mundo", mas resolvi deixar quieto. Seria injusto com nós dois. Beijávamos, um as bochechas do outro, como que pedindo que nunca mais fiquemos sem nos ver. Acomodávamos juntos a cabeça um no ombro do outro. Não falávamos, em teoria era um silêncio, mas nossos sentimentos estavam berrando pelos nossos corpos.
***
Eu vivia falando que queria ter com ele um relacionamento civilizado de ex-namorados.
Ontem, muito mais do que civilizado, tive um reencontro absolutamente terno e carinhoso.
Quando eu saí do bar, a vida voltava ao normal aos poucos. Não quis fazer histórias desse nosso reencontro. Ficar imaginando um beijo na boca, ou ficar pensando o que será que ele sentiu, ou ficar imaginando quando nos reencontraremos. Não quis nada disso. Talvez uma lágrima tenha escorrido, muito mais pela intensidade de tudo aquilo do que pura tristeza propriamente dita. Foi um reencontro realmente forte. Fica lá guardado, em um cantinho especial e fechado, meu carinho por ele, minha consideração absurda por ele, um amor gigantesco, e o gosto gostoso e familar das lembranças boas que colecionamos.
Nosso reencontro me rendeu bons sonhos - no sentido literal e não figurado da palavra.
Mas hoje é segunda feira e a vida precisa voltar ao normal.
14.7.08
10.7.08
Uma boa vida aqui
Mais uma vez eu vou babar ovo para as inúmeras possibilidades já descobertas e as ainda não exploradas e nem conhecidas dessa cidade. Poderia muito bem morar em Londres, Buenos Aires, Nova York ou Paris. No Brasil, penso até que me mudaria para Brasília, Porto Alegre, e Curitiba, mais ao norte não porque o pseudo frio brasileiro e a possibilidade de fazer 10 graus ou menos me é por demais necessária (pelo menos fica a esperança da chegada da frente fria).
Fico feliz, inclusive, que nesse ano o inverno está com cara de inverno, as frentes frias chegam e vão, o dia é ensolarado e a noite é bem geladinha. Mas não vou me enveredar pelo caminho da meteorologia, outro dia falo disso. O meu ponto é que eu poderia muito bem morar em outros cantos, mas moro em São Paulo por "n" motivos, sendo o mais marcante deles é que eu nunca me mudei daqui.
E essa cidade, tão dura, tão cinza, tão cheia, tão poluída, tão impraticável, que muitas pessoas não gostam, ainda me encanta. Me encanta porque nela residem pequenas coisas, eventos, possibilidades, que formam uma mistura deliciosa em prol do meu amor infinito por aqui, que vai além do fato de essa ter sido a minha casa desde sempre, e minha família, amigos, e meu coração morarem aqui.
(Mas gostaria de deixar aqui meu protesto. Não cabe mais. Aqui realmente não cabe mais um prédio e um carro sequer, peloamordedeus, que a capacidade de São Paulo já está bem devidamente esgotada.)
Dando louros aos que merecem, vou mencionar aqui algumas das últimas coisas só de São Paulo que andei fazendo e que me deixaram feliz da vida.
- Comemoração de 100 anos da Imigração Japonesa no Planetário
Espetáculo: Ryoto.
O trajeto feito pelo primeiro barco imigrante aqui no Brasil, e retratado pelo céu que mudava pelo caminho e pelas diferentes lendas para explicar as estrelas nos diferentes países. De trilha sonora, uma flauta tipicamente japonesa. Espetáculo muito bonito e emocionante, que mistura história, diversas mitologias, astronomia e música.
- "A Noite dos Palhaços Mudos"
Espaço dos Parlapatões, Pça Roosevelt, 4as e 5as às 21hrs, até o final de julho.
Encenada pela La Mínima e escrita pelo Laerte.
Peça linda, demais engraçada, com expressões faciais e corporais extremamente bem elaboradas a ponto de tornar a voz um instrumento absolutamente desnecessário. Discutimos qual seria a melhor cena, e eu achei particularmente a queda de lá de cima com o guarda-chuva. Mas muita gente adorou a perseguição, teve gente que adorou a escalada pela janela, ou as caminhadas lá no alto, quase perto de cair, e todo o medo de altura estampado na cara deles. A cerveja que se seguiu, e a carne seca temperada com a maionese especial do Papo, Pinga e Petisco, e a conversa sempre tão boa, tudo isso fez dessa despretenciosa noite de quinta uma das mais gostosas que há muito eu não via.
- Uma cerveja no Hassan
Lá em uma esquina escondida na Lapa longínqua um boteco fez fama com meu primo e meu irmão, e por coincidência fica do lado da escola onde meu pai faz aulas de canto, então marcamos todos... Meu pai, seus filhos, e alguns de seus sobrinhos. Sábado passado a noite estava gelada, e a rua do Hassan fazia um vento encanado absurdo, gelado. O boteco é boteco mesmo, o típico pé sujo, com comidinhas com cara de duvidosa, cadeiras de alumínio com a eterna sensação de uma iminente queda. Quatro horas sentada na mesa do bar, comendo petiscos árabes muito bons, e tomando uma boa cerveja , e deixei lá menos de dez reais. Um bom boteco, e realmente barato. Quando cheguei em casa meu nariz ainda estava com a ponta congelada.
- Um vinho no Kilyx
Estava eu quinta passada querendo fazer alguma coisa de diferente que se pode fazer em São Paulo, querendo explorar territórios nunca dantes navegados. E eu nunca tinha ido a um winebar, por mais que eles estejam ficando cada vez mais populares aqui. Até que a nova-iorquina me aborda querendo ir a um winebar. Seria ótimo, juntando minha vontade de explorar o desconhecido, a vontade dela por um paladar específico, e a nossa vontade por uma noite de conversas adoráveis. E bebemos uma garrafa do vinho branco (é mel? é ameixa?) e outra do tinto (amadeirado, mas com nozes talvez?) tentando adivinhar os sabores escondidos por trás do Sauvignon Blanc e do Syrah. Gosto demais disso de bom vinho, a embriaguez do vinho é uma sensação fantástica, boa demais para ser compartilhada ou para ser curtida solitariamente. As conversas que acontecem com um copo de vinho na mão são absolutamente sensíveis. E aí, na nossa super noite dos prazeres gastronômicos que essa vida pode nos oferecer, emendamos no Havanna. Emendamos com vontade, tomamos um drink de café e chocolate especial de inverno, comemos bocaditos argentinos, dividimos nossas experiências com os argentinos... e a intimidade que sempre existiu simplesmente se acentuou belamente, de forma sutil e natural.
- Um show no Ibirapuera
Jovens homenageando João Donato: Marcelo Camelo, Marcelo D2, Bebel Gilberto, Adriana Calacanhoto, Fernanda Takai, Roberta Sá
Fazia frio quarta à tarde quando chegamos no parque, e já entardecia. O público estava inteiro sentado na grama, e Nelson Motta apresentava os cantores novos que entrariam no palco. A grama umida penetrava pela calça e deixava o bumbum frio, mas tudo bem, tudo era tão lindo, e estava tão legal, que era isso o que eu precisava. A qualidade do som não era das melhores, mas as músicas eram. E me permiti entrar em uma viagem gostosa de saudades embalada por "Naquela estação" na versão da Adriana Calcanhoto. Era a saudades da qual eu tanto fugia. Saudades como a sensação gostosa de sentir falta de alguma coisa boa que já esteve aqui e não está mais. Senti saudades de uma pessoa boa. Boa, maravilhosa, e com uma importância absurda na minha vida. A sensação que fica é que essas saudades sempre foram latentes e que eu estava precisando admiti-la para mim mesma. Finalmente consegui. Ao som de "Naquela Estação", com o J. Donato no piano e a Adriana Calcanhoto na voz. "Você entrou no trem e eu, na estação, vendo o céu fugir. Também não dava mais para tentar lhe convencer a não partir, e agora? Tudo bem, você partiu para ver outras paisagens."
Tudo isso aqui, em São Paulo, gastando no máximo R$ 10,00 pro programa, e aproveitando de fato tudo que de melhor essa cidade tem a nos oferecer.
Fico feliz, inclusive, que nesse ano o inverno está com cara de inverno, as frentes frias chegam e vão, o dia é ensolarado e a noite é bem geladinha. Mas não vou me enveredar pelo caminho da meteorologia, outro dia falo disso. O meu ponto é que eu poderia muito bem morar em outros cantos, mas moro em São Paulo por "n" motivos, sendo o mais marcante deles é que eu nunca me mudei daqui.
E essa cidade, tão dura, tão cinza, tão cheia, tão poluída, tão impraticável, que muitas pessoas não gostam, ainda me encanta. Me encanta porque nela residem pequenas coisas, eventos, possibilidades, que formam uma mistura deliciosa em prol do meu amor infinito por aqui, que vai além do fato de essa ter sido a minha casa desde sempre, e minha família, amigos, e meu coração morarem aqui.
(Mas gostaria de deixar aqui meu protesto. Não cabe mais. Aqui realmente não cabe mais um prédio e um carro sequer, peloamordedeus, que a capacidade de São Paulo já está bem devidamente esgotada.)
Dando louros aos que merecem, vou mencionar aqui algumas das últimas coisas só de São Paulo que andei fazendo e que me deixaram feliz da vida.
- Comemoração de 100 anos da Imigração Japonesa no Planetário
Espetáculo: Ryoto.
O trajeto feito pelo primeiro barco imigrante aqui no Brasil, e retratado pelo céu que mudava pelo caminho e pelas diferentes lendas para explicar as estrelas nos diferentes países. De trilha sonora, uma flauta tipicamente japonesa. Espetáculo muito bonito e emocionante, que mistura história, diversas mitologias, astronomia e música.
- "A Noite dos Palhaços Mudos"
Espaço dos Parlapatões, Pça Roosevelt, 4as e 5as às 21hrs, até o final de julho.
Encenada pela La Mínima e escrita pelo Laerte.
Peça linda, demais engraçada, com expressões faciais e corporais extremamente bem elaboradas a ponto de tornar a voz um instrumento absolutamente desnecessário. Discutimos qual seria a melhor cena, e eu achei particularmente a queda de lá de cima com o guarda-chuva. Mas muita gente adorou a perseguição, teve gente que adorou a escalada pela janela, ou as caminhadas lá no alto, quase perto de cair, e todo o medo de altura estampado na cara deles. A cerveja que se seguiu, e a carne seca temperada com a maionese especial do Papo, Pinga e Petisco, e a conversa sempre tão boa, tudo isso fez dessa despretenciosa noite de quinta uma das mais gostosas que há muito eu não via.
- Uma cerveja no Hassan
Lá em uma esquina escondida na Lapa longínqua um boteco fez fama com meu primo e meu irmão, e por coincidência fica do lado da escola onde meu pai faz aulas de canto, então marcamos todos... Meu pai, seus filhos, e alguns de seus sobrinhos. Sábado passado a noite estava gelada, e a rua do Hassan fazia um vento encanado absurdo, gelado. O boteco é boteco mesmo, o típico pé sujo, com comidinhas com cara de duvidosa, cadeiras de alumínio com a eterna sensação de uma iminente queda. Quatro horas sentada na mesa do bar, comendo petiscos árabes muito bons, e tomando uma boa cerveja , e deixei lá menos de dez reais. Um bom boteco, e realmente barato. Quando cheguei em casa meu nariz ainda estava com a ponta congelada.
- Um vinho no Kilyx
Estava eu quinta passada querendo fazer alguma coisa de diferente que se pode fazer em São Paulo, querendo explorar territórios nunca dantes navegados. E eu nunca tinha ido a um winebar, por mais que eles estejam ficando cada vez mais populares aqui. Até que a nova-iorquina me aborda querendo ir a um winebar. Seria ótimo, juntando minha vontade de explorar o desconhecido, a vontade dela por um paladar específico, e a nossa vontade por uma noite de conversas adoráveis. E bebemos uma garrafa do vinho branco (é mel? é ameixa?) e outra do tinto (amadeirado, mas com nozes talvez?) tentando adivinhar os sabores escondidos por trás do Sauvignon Blanc e do Syrah. Gosto demais disso de bom vinho, a embriaguez do vinho é uma sensação fantástica, boa demais para ser compartilhada ou para ser curtida solitariamente. As conversas que acontecem com um copo de vinho na mão são absolutamente sensíveis. E aí, na nossa super noite dos prazeres gastronômicos que essa vida pode nos oferecer, emendamos no Havanna. Emendamos com vontade, tomamos um drink de café e chocolate especial de inverno, comemos bocaditos argentinos, dividimos nossas experiências com os argentinos... e a intimidade que sempre existiu simplesmente se acentuou belamente, de forma sutil e natural.
- Um show no Ibirapuera
Jovens homenageando João Donato: Marcelo Camelo, Marcelo D2, Bebel Gilberto, Adriana Calacanhoto, Fernanda Takai, Roberta Sá
Fazia frio quarta à tarde quando chegamos no parque, e já entardecia. O público estava inteiro sentado na grama, e Nelson Motta apresentava os cantores novos que entrariam no palco. A grama umida penetrava pela calça e deixava o bumbum frio, mas tudo bem, tudo era tão lindo, e estava tão legal, que era isso o que eu precisava. A qualidade do som não era das melhores, mas as músicas eram. E me permiti entrar em uma viagem gostosa de saudades embalada por "Naquela estação" na versão da Adriana Calcanhoto. Era a saudades da qual eu tanto fugia. Saudades como a sensação gostosa de sentir falta de alguma coisa boa que já esteve aqui e não está mais. Senti saudades de uma pessoa boa. Boa, maravilhosa, e com uma importância absurda na minha vida. A sensação que fica é que essas saudades sempre foram latentes e que eu estava precisando admiti-la para mim mesma. Finalmente consegui. Ao som de "Naquela Estação", com o J. Donato no piano e a Adriana Calcanhoto na voz. "Você entrou no trem e eu, na estação, vendo o céu fugir. Também não dava mais para tentar lhe convencer a não partir, e agora? Tudo bem, você partiu para ver outras paisagens."
Tudo isso aqui, em São Paulo, gastando no máximo R$ 10,00 pro programa, e aproveitando de fato tudo que de melhor essa cidade tem a nos oferecer.
28.6.08
Me quedo aquí
Por: Gustavo Cerati
Espera
No te enojes esta vez
Lo vi venir
Como siempre la reacción
Es tan lenta como mi voz
Arrasando con la razón
El tsunami llegó hasta aquí
Lo vi venir
Si aprendemos la lección
Sabrás que al finel misterio es contradicción
Con todo aquello que conoces
A veces hago todo al revés
El tsunami llegó hasta aquí
Lo vi venir
Todo se movió y es mejor quedarse quieto
Pronto saldrá el sol
Y algún daño repondremos
Terco como soy me quedo aquí
La tinta no seco
Y en palabras dije muchas cosas
Pero en mi corazón todavía queda
Tanto por decir
Tanto por decir
Tanto por decir
No me voy...
Me quedó aquí
Y si no, no aprendimos la lección
Y si no, no aprendimos la lección
http://www.youtube.com/watch?v=Q6qFAqc5KnM
Créditos ao blog Live Forever, que conheci através do Registro Dissonante, do amigo de uma amiga minha. Foi pelo Live Forever que conheci essa música, que embalou a trilha sonora dessa semana inteira.
Embalou a trilha sonora dessa semana inteira porque:
- A: há muito tempo eu não sentia tantas saudades assim da Argentina;
- B: a letra é bem bacana e bem significativa, muito embora eu não dedique essa letra a particularmente ninguém em específico, sino que a mim mesma.
Espera
No te enojes esta vez
Lo vi venir
Como siempre la reacción
Es tan lenta como mi voz
Arrasando con la razón
El tsunami llegó hasta aquí
Lo vi venir
Si aprendemos la lección
Sabrás que al finel misterio es contradicción
Con todo aquello que conoces
A veces hago todo al revés
El tsunami llegó hasta aquí
Lo vi venir
Todo se movió y es mejor quedarse quieto
Pronto saldrá el sol
Y algún daño repondremos
Terco como soy me quedo aquí
La tinta no seco
Y en palabras dije muchas cosas
Pero en mi corazón todavía queda
Tanto por decir
Tanto por decir
Tanto por decir
No me voy...
Me quedó aquí
Y si no, no aprendimos la lección
Y si no, no aprendimos la lección
http://www.youtube.com/watch?v=Q6qFAqc5KnM
Créditos ao blog Live Forever, que conheci através do Registro Dissonante, do amigo de uma amiga minha. Foi pelo Live Forever que conheci essa música, que embalou a trilha sonora dessa semana inteira.
Embalou a trilha sonora dessa semana inteira porque:
- A: há muito tempo eu não sentia tantas saudades assim da Argentina;
- B: a letra é bem bacana e bem significativa, muito embora eu não dedique essa letra a particularmente ninguém em específico, sino que a mim mesma.
24.6.08
La Nouveau Chef de Cuisine
OU: como surpreender sua família no almoço de domingo
Personagem principal: nunca fui de cozinhar, mal e mal faço macarrão na manteiga com um bife, não sei descascar laranja, não tenho a mínima familiaridade com as coisas da cozinha. Em viagens de turma, sempre fui responsável por lavar a louça, porque nunca fui responsável por cozinhar. Pontos fortes como produtora de itens gastronômicos: meu café preto é animal, e adoro fazer saladas e inventar molhos.
Mas tinha decidido que nesse domingo eu ia cozinhar. Defini o cardápio, deixei uma lista de compras pro meu pai comprar domingo de manhã, e quando acordei domingo já fui direto para a cozinha.
Primeiro passo:
Organizar a pia.
Lavei todas as louças acumuladas do final de semana, porque da minha primeira vez queria ter uma pia que nem a do programa da Ana Maria Braga, toda organizadinha e limpinha. Minha mãe, da mesa do café da manhã com a Folha de São Paulo e a Veja, ficou dando risada.
Segundo passo:
Preparatórios.
Lava o salmão, arruma nas travessas, joga o molho de limão e sal por cima. Lava o manjericão e o alecrim, faz tipo um pesto deles, joga em cima do salmão. Deixa lá.
Lava a alface, o pepino, corta o brie, monta a salada. Deixa lá.
Rala a abobrinha, rala o gruyère, corta em rodelas uma cebola e pica em pedaços bem pequenos outra cebola.
Separa a amêndoa, o azeite, a manteiga, o vinho, o arroz arbóreo, o sal, o açúcar. Tudo na pia, com fácil acesso.
Terceiro passo:
Light my fire.
Agora o fogo está ligado, o forno está sendo aquecido.
Fiquei com calor e tirei a blusa, porque estava suando.
Coloca a água na medida para o risoto para ferver. Liga a panela do risoto, refoga no azeite a cebola e a abobrinha. Dá uma fritadinha básica, joga em cima o arroz, continua fritando, o vinho, e frita mais um pouco, coloca o sal. A água ferveu, começa a jogar a água no risoto aos poucos, sempre mexendo, conforme o risoto ia absorvendo.
Forno quente. Coloca o salmão.
Frigideira um: um pouco de manteiga, derrete, joga as amêndoas em cima. Doura. Depois de douradas, jogar o açucar, mexer até caramelizar.
Frigideira dois: derrete a menteiga, e joga em cima o pesto de manjericão e alecrim que sobrou do que foi colocado no salmão.
Frigideira três: um bucadinho de azeite e a cebola (que tinha sido cortada em rodelas) vai lá para ficar murcha e dourada.
Enquanto isso, o risoto já absorveu toda a água. Joga o gruyère ralado e mexe bem até o risoto ficar mais cremoso. Tampa a panela e espera.
Termina o trabalho com as três frigideiras ao mesmo tempo (ENLOUQUECEDOR!).
Quarto passo:
Servir.
O risoto é colocado em uma travessa, e as amêndoas caramelizadas são jogadas em cima do risoto.
A cebola frita é jogada em cima da salada, e o molho de azeite, balsâmico, mel e sal também.
O salmão já está douradinho e todo o suco de limão que estava na travessa já secou, assim como as ervinhas que estavam em cima do peixe quando ele foi pro forno. As outras ervinhas que foram para frigideira com manteiga dão o gran finale para o peixe.
Quinto passo:
Puro deleite.
A adrenalina passou. Já vesti meu casaco. O salmão voou, assim como o risoto. Não sobrou nada para contar história. Meus pais e meu irmão elogiam o almoço. Falam só que eu não deixe a amêndoa passar do ponto na próxima vez. Bate um sono típico de fim de efeito de endorfina. Sim, brincar de cozinheira por um almoço foi bem tenso para mim. Mas a aceitação de todos foi maravilhosa... Agora estou colhendo os louros dessa empreitada no fogão, já que todo mundo da família extendida ficou sabendo e quer um almoço meu. Se a aceitação continuar em níveis bons assim, vou procurar formas de ganhar uns trocados com o meu menu fixo, já que estou mesmo precisando de formas criativas de levantar fundos.
Uma observação importante: não, não foi marmelada meus pais e meu irmão terem adorado o menu. Eles são super exigentes comigo, e a aprovação deles realmente significa muito.
Personagem principal: nunca fui de cozinhar, mal e mal faço macarrão na manteiga com um bife, não sei descascar laranja, não tenho a mínima familiaridade com as coisas da cozinha. Em viagens de turma, sempre fui responsável por lavar a louça, porque nunca fui responsável por cozinhar. Pontos fortes como produtora de itens gastronômicos: meu café preto é animal, e adoro fazer saladas e inventar molhos.
Mas tinha decidido que nesse domingo eu ia cozinhar. Defini o cardápio, deixei uma lista de compras pro meu pai comprar domingo de manhã, e quando acordei domingo já fui direto para a cozinha.
Primeiro passo:
Organizar a pia.
Lavei todas as louças acumuladas do final de semana, porque da minha primeira vez queria ter uma pia que nem a do programa da Ana Maria Braga, toda organizadinha e limpinha. Minha mãe, da mesa do café da manhã com a Folha de São Paulo e a Veja, ficou dando risada.
Segundo passo:
Preparatórios.
Lava o salmão, arruma nas travessas, joga o molho de limão e sal por cima. Lava o manjericão e o alecrim, faz tipo um pesto deles, joga em cima do salmão. Deixa lá.
Lava a alface, o pepino, corta o brie, monta a salada. Deixa lá.
Rala a abobrinha, rala o gruyère, corta em rodelas uma cebola e pica em pedaços bem pequenos outra cebola.
Separa a amêndoa, o azeite, a manteiga, o vinho, o arroz arbóreo, o sal, o açúcar. Tudo na pia, com fácil acesso.
Terceiro passo:
Light my fire.
Agora o fogo está ligado, o forno está sendo aquecido.
Fiquei com calor e tirei a blusa, porque estava suando.
Coloca a água na medida para o risoto para ferver. Liga a panela do risoto, refoga no azeite a cebola e a abobrinha. Dá uma fritadinha básica, joga em cima o arroz, continua fritando, o vinho, e frita mais um pouco, coloca o sal. A água ferveu, começa a jogar a água no risoto aos poucos, sempre mexendo, conforme o risoto ia absorvendo.
Forno quente. Coloca o salmão.
Frigideira um: um pouco de manteiga, derrete, joga as amêndoas em cima. Doura. Depois de douradas, jogar o açucar, mexer até caramelizar.
Frigideira dois: derrete a menteiga, e joga em cima o pesto de manjericão e alecrim que sobrou do que foi colocado no salmão.
Frigideira três: um bucadinho de azeite e a cebola (que tinha sido cortada em rodelas) vai lá para ficar murcha e dourada.
Enquanto isso, o risoto já absorveu toda a água. Joga o gruyère ralado e mexe bem até o risoto ficar mais cremoso. Tampa a panela e espera.
Termina o trabalho com as três frigideiras ao mesmo tempo (ENLOUQUECEDOR!).
Quarto passo:
Servir.
O risoto é colocado em uma travessa, e as amêndoas caramelizadas são jogadas em cima do risoto.
A cebola frita é jogada em cima da salada, e o molho de azeite, balsâmico, mel e sal também.
O salmão já está douradinho e todo o suco de limão que estava na travessa já secou, assim como as ervinhas que estavam em cima do peixe quando ele foi pro forno. As outras ervinhas que foram para frigideira com manteiga dão o gran finale para o peixe.
Quinto passo:
Puro deleite.
A adrenalina passou. Já vesti meu casaco. O salmão voou, assim como o risoto. Não sobrou nada para contar história. Meus pais e meu irmão elogiam o almoço. Falam só que eu não deixe a amêndoa passar do ponto na próxima vez. Bate um sono típico de fim de efeito de endorfina. Sim, brincar de cozinheira por um almoço foi bem tenso para mim. Mas a aceitação de todos foi maravilhosa... Agora estou colhendo os louros dessa empreitada no fogão, já que todo mundo da família extendida ficou sabendo e quer um almoço meu. Se a aceitação continuar em níveis bons assim, vou procurar formas de ganhar uns trocados com o meu menu fixo, já que estou mesmo precisando de formas criativas de levantar fundos.
Uma observação importante: não, não foi marmelada meus pais e meu irmão terem adorado o menu. Eles são super exigentes comigo, e a aprovação deles realmente significa muito.
Sol de inverno em uma noite gelada de 2a feira
OU: como fazer sua segunda terminar bem, sua semana começar bem, com uma simples mudança de planos.
Cenário inicial: o quarto.
19.17
No seu computador, ela termina os trabalhos do dia, fala com a sócia pelo MSN, faz o planejamento da semana, decide algumas coisas sobre a reunião de sexta. Está frio e ela tem planos de fazer os exercícios de yoga e logo depois tomar banho, para esquentar os pés bem gelados. Depois da reunião pelo MSN, da yoga, e do banho, In Therapy começa na HBO às 20.30 e os capítulos da análise da Laura estão melhor a cada semana. Ela pretende, já quentinha e de pijama, assistir esse capítulo, depois jantar com os pais assistindo a Lost - o único vício televisivo insuperável da mãe dela -, e depois assistir CQC. Alguma hora da noite ela também pretende comer o pinhão que a Cidoca tinha cozinhado à tarde. Ela dormiria feliz - um pouco miserável, é fato, porque está difícil de superar - mas feliz.
Em alguns segundos tudo isso pode mudar. E muda.
19.21
Toca o celular. É o amigo-vizinho, uma das pessoas mais importantes da vida dela.
Ele pergunta quais os planos dela para hoje, porque ele quer um café e um cinema. Ela (bate preguiça e dá vontade de continuar meio miserável dentro de casa choramingando de vez em quando, curtindo o colo dos pais) fala que não sabe, que tem vontade mas que não sabe, e que não está muito boa companhia hoje. Ele pede que eles não falem de assuntos filosóficos hoje. Diz que quer relaxar de um dia pesado, e que quer boa companhia e boas risadas e só. Diz também que quer filme fácil. Ela pergunta: você assistiria Agente 86? (pergunta e, por dentro, fica com um pouco de vergonha de convidar justo ele para esse filme tão, tão, tão... bobinho). Ele fala, enfaticamente, que era exatamente isso que ele tinha em mente: Agente 86. Ela ri por dentro, e lembra que ela não precisaria ter vergonha dele para convidar para esse filme. Eles marcam a hora e ela fica feliz e surpresa com a atitude dela, e fica feliz e muito aconchegada por esse telefonema inesperado do grande amigo. Ela volta a trabalhar, termina a reunião via MSN com a sócia, se troca, e sai de casa.
19.49
O carro sai da garagem. Será que, por ser uma noite fria, todo mundo resolveu voltar cedo para casa hoje? O trânsito que ela encontra na rua está bem similar ao de um domingo - sendo que estamos falando de uma segunda feira, 19.50 - hora do rush, oras bolas! A sensação que ela teve é que a cidade estava abrindo caminhos para ela. Metáfora legal se ampliarmos para todos os outros aspectos da vida, não só o do trânsito propriamente dito. Na Augusta com a Santos, a vaga cativa dela estava lá, à espera do Blueberry.
20.03
Chega no Conjunto Nacional. Liga pro amigo. Ele fala: entra na Livraria Cultura e me espera lá, chego em 10 minutos. Ela fuma um cigarro na rua na noite fria, coisa gostosa de se fazer, toma vento frio na cara, veste o capuz do casaco de esquimó, mais um pouco de vento frio na cara, e entra no quentinho da Livraria Cultura. Acha na estante dos lançamentos um livro com a poesia completa do Manuel Bandeira. Ao abrir em uma página aleatória, abre justamente aqui: Vou-me embora para Pasárgada. Será que até o Bandeira estava dialogando com ela naquela noite? Se joga em um daqueles puffs coloridos deliciosos, afoga a cabeça no capuz do seu casacó de esquimó, e fica lá deitada, lendo Bandeira e esperando o amigo. Se sente extremamente bem.
20.16
O amigo chega. Como de um pulo, ela se levanta do puff e praticamente pula em cima do amigo, tamanha a alegria. O abraço parece eterno, e parece naquele instante a melhor coisa a ser feita. Ela mostra para ele o livro do Bandeira, que ele gosta também. Começa a conversa que não acaba nunca. Eles decidem ir pro Viena jantar. No caminho do Viena, mais uma vez ela se lembra como é bom ter esse amigo por perto, como ele muda o mundo dela para um lugar melhor, como ele faz dela uma pessoa melhor, como ele tem a melhor conversa do mundo, e a melhor companhia, e todos os outros melhores que alguma pessoa possa ter.
20.21
No quentinho do Viena, com cheiro de sopa, de pizza, de massa, os dois conversam, conversam, conversam, conversam, conversam, conversam. A conversa nunca segue uma linha reta, mas sempre volta para onde ela tinha parado. E assim os assuntos mudam, começam, recomeçam, e acabam. A conversa não segue uma linha reta, mas a melhor sensação que dá é de dois amigos juntos com uma intimidade absurda, uma proximidade absurda, um sentimento tão verdadeiramente verdadeiro que até emociona. E eles falam muito de tudo, se atualizam dos assuntos, comem bastante também, e estão felizes.
21.25
Ela olha no relógio do celular. "Temos 20 minutos pro filme". Ele pede a conta, eles pagam, saem andando rápido. Quando chegam na faixa de pedestres da Paulista com a Augusta, o farol está verde mas quase indo pro vermelho. Se entreolham. "Vamos?", "Vamos!". Vão. Correndo. De mãos dadas e dando risada. Ele diz que "a pizza está aqui", ela dá risada mais gostoso ainda, e eles chegam do outro lado sãos e salvos, mesmo que correndo.
21.45
Já sentados no cinema e ainda conversando, começam os trailers. O trailer do filme novo do Will Smith, chamado alguma coisa parecida com Hancock, o trailer do filme da Viagem ao Centro do Mundo, que terá exibição em 3D. Eles combinam de ir em todos esses filmes. Ela comenta, feliz, que adora filmes de férias. Então de quebra eles combinam de assistir Kung Fu Panda. Ele brinca que então nunca mais vai querer assistir os filmes europeus com ela.
23.45
Com a barriga doendo de tanto rir, e com todas as endorfinas do mundo circulando pelo sangue, e com a melhor companhia do mundo ao lado, eles saem do cinema. Bem felizes. Vão conversando mais e mais e mais, atravessam de novo a Paulista - mas dessa vez, sem pressa. Ele coloca o capuz nela, fecha muito o ziper do casaco, e fala: "nossa, nunca tinha visto um esquimó na vida!". As risadas estão muito gostosas nessa noite. No relógio do Conjunto Nacional, o termômetro marcar 9 graus. Faz frio gostoso. Na hora de atravessar a Santos, eles brincam se puxam de volta para a sarjeta, meio que dançam no meio da faixa de pedestres ao atravessar a rua... um abração dos mais gostosos, e o retorno mais feliz do mundo para casa.
A noite poderia acabar aqui e já teria sido maravilhosa, fantástica, perfeita.
Mas se em alguns segundos todo o sentimento de "feeling miserable" pode mudar após um telefonema, outro telefonema leva ela do "feeling absolutely good" para o "feeling absurdly great" já no final da noite.
00.03
Está chegando em casa e toca o celular. Ela toma um susto. Será que é o telefonema que ela espera há tanto tempo? Atende. Do outro lado da linha, uma voz que parecia tão longe fala: MEU AMOR!!!! De fato, ele mora na Austrália, está bem longe mesmo. Fica falando com ele, colocando os papos em dia, acende um cigarro na cozinha e fica lá papeando, pega pinhão na panela e fica lá papeando... Ele conta de tudo da Austrália, da vista que ele tem para a Baía de Sidney, do Rhys que cozinha muito e que eles se dão super bem e que é muito bom morar com ele, de todos os planos, dos causos do café, do departamento de imigração na Austrália, da idéia de fazer um curso, da impossibilidade de ele vir pro Brasil enquanto não sai o visto dele de "interdependência"... Ela fala um pouco também. Ela sente saudades da noite de whiskey e muito cigarro num pub escuro e irlandês, noite que mora no imaginário dos dois e só, que nunca existiu. Será possível sentir saudades de alguma coisa que mora no imaginário e que nunca existiu? Ela sente saudades da noite no pub com ele, e ele também sente saudades dessa noite. Parece que essa imagem é um acalanto para os dois. Antes de desligar, ela fala: eu te amo. E ele fala: eu te amo.
01.15
Ela vai dormir tão feliz e realizada que tudo o que ela precisa agora é de um bom cobertor pesado e uma cama quentinha. Ela tem certeza que essa não será mais uma das muitas noites de insônia que ela tem tido desde a semana passada.
Cenário inicial: o quarto.
19.17
No seu computador, ela termina os trabalhos do dia, fala com a sócia pelo MSN, faz o planejamento da semana, decide algumas coisas sobre a reunião de sexta. Está frio e ela tem planos de fazer os exercícios de yoga e logo depois tomar banho, para esquentar os pés bem gelados. Depois da reunião pelo MSN, da yoga, e do banho, In Therapy começa na HBO às 20.30 e os capítulos da análise da Laura estão melhor a cada semana. Ela pretende, já quentinha e de pijama, assistir esse capítulo, depois jantar com os pais assistindo a Lost - o único vício televisivo insuperável da mãe dela -, e depois assistir CQC. Alguma hora da noite ela também pretende comer o pinhão que a Cidoca tinha cozinhado à tarde. Ela dormiria feliz - um pouco miserável, é fato, porque está difícil de superar - mas feliz.
Em alguns segundos tudo isso pode mudar. E muda.
19.21
Toca o celular. É o amigo-vizinho, uma das pessoas mais importantes da vida dela.
Ele pergunta quais os planos dela para hoje, porque ele quer um café e um cinema. Ela (bate preguiça e dá vontade de continuar meio miserável dentro de casa choramingando de vez em quando, curtindo o colo dos pais) fala que não sabe, que tem vontade mas que não sabe, e que não está muito boa companhia hoje. Ele pede que eles não falem de assuntos filosóficos hoje. Diz que quer relaxar de um dia pesado, e que quer boa companhia e boas risadas e só. Diz também que quer filme fácil. Ela pergunta: você assistiria Agente 86? (pergunta e, por dentro, fica com um pouco de vergonha de convidar justo ele para esse filme tão, tão, tão... bobinho). Ele fala, enfaticamente, que era exatamente isso que ele tinha em mente: Agente 86. Ela ri por dentro, e lembra que ela não precisaria ter vergonha dele para convidar para esse filme. Eles marcam a hora e ela fica feliz e surpresa com a atitude dela, e fica feliz e muito aconchegada por esse telefonema inesperado do grande amigo. Ela volta a trabalhar, termina a reunião via MSN com a sócia, se troca, e sai de casa.
19.49
O carro sai da garagem. Será que, por ser uma noite fria, todo mundo resolveu voltar cedo para casa hoje? O trânsito que ela encontra na rua está bem similar ao de um domingo - sendo que estamos falando de uma segunda feira, 19.50 - hora do rush, oras bolas! A sensação que ela teve é que a cidade estava abrindo caminhos para ela. Metáfora legal se ampliarmos para todos os outros aspectos da vida, não só o do trânsito propriamente dito. Na Augusta com a Santos, a vaga cativa dela estava lá, à espera do Blueberry.
20.03
Chega no Conjunto Nacional. Liga pro amigo. Ele fala: entra na Livraria Cultura e me espera lá, chego em 10 minutos. Ela fuma um cigarro na rua na noite fria, coisa gostosa de se fazer, toma vento frio na cara, veste o capuz do casaco de esquimó, mais um pouco de vento frio na cara, e entra no quentinho da Livraria Cultura. Acha na estante dos lançamentos um livro com a poesia completa do Manuel Bandeira. Ao abrir em uma página aleatória, abre justamente aqui: Vou-me embora para Pasárgada. Será que até o Bandeira estava dialogando com ela naquela noite? Se joga em um daqueles puffs coloridos deliciosos, afoga a cabeça no capuz do seu casacó de esquimó, e fica lá deitada, lendo Bandeira e esperando o amigo. Se sente extremamente bem.
20.16
O amigo chega. Como de um pulo, ela se levanta do puff e praticamente pula em cima do amigo, tamanha a alegria. O abraço parece eterno, e parece naquele instante a melhor coisa a ser feita. Ela mostra para ele o livro do Bandeira, que ele gosta também. Começa a conversa que não acaba nunca. Eles decidem ir pro Viena jantar. No caminho do Viena, mais uma vez ela se lembra como é bom ter esse amigo por perto, como ele muda o mundo dela para um lugar melhor, como ele faz dela uma pessoa melhor, como ele tem a melhor conversa do mundo, e a melhor companhia, e todos os outros melhores que alguma pessoa possa ter.
20.21
No quentinho do Viena, com cheiro de sopa, de pizza, de massa, os dois conversam, conversam, conversam, conversam, conversam, conversam. A conversa nunca segue uma linha reta, mas sempre volta para onde ela tinha parado. E assim os assuntos mudam, começam, recomeçam, e acabam. A conversa não segue uma linha reta, mas a melhor sensação que dá é de dois amigos juntos com uma intimidade absurda, uma proximidade absurda, um sentimento tão verdadeiramente verdadeiro que até emociona. E eles falam muito de tudo, se atualizam dos assuntos, comem bastante também, e estão felizes.
21.25
Ela olha no relógio do celular. "Temos 20 minutos pro filme". Ele pede a conta, eles pagam, saem andando rápido. Quando chegam na faixa de pedestres da Paulista com a Augusta, o farol está verde mas quase indo pro vermelho. Se entreolham. "Vamos?", "Vamos!". Vão. Correndo. De mãos dadas e dando risada. Ele diz que "a pizza está aqui", ela dá risada mais gostoso ainda, e eles chegam do outro lado sãos e salvos, mesmo que correndo.
21.45
Já sentados no cinema e ainda conversando, começam os trailers. O trailer do filme novo do Will Smith, chamado alguma coisa parecida com Hancock, o trailer do filme da Viagem ao Centro do Mundo, que terá exibição em 3D. Eles combinam de ir em todos esses filmes. Ela comenta, feliz, que adora filmes de férias. Então de quebra eles combinam de assistir Kung Fu Panda. Ele brinca que então nunca mais vai querer assistir os filmes europeus com ela.
23.45
Com a barriga doendo de tanto rir, e com todas as endorfinas do mundo circulando pelo sangue, e com a melhor companhia do mundo ao lado, eles saem do cinema. Bem felizes. Vão conversando mais e mais e mais, atravessam de novo a Paulista - mas dessa vez, sem pressa. Ele coloca o capuz nela, fecha muito o ziper do casaco, e fala: "nossa, nunca tinha visto um esquimó na vida!". As risadas estão muito gostosas nessa noite. No relógio do Conjunto Nacional, o termômetro marcar 9 graus. Faz frio gostoso. Na hora de atravessar a Santos, eles brincam se puxam de volta para a sarjeta, meio que dançam no meio da faixa de pedestres ao atravessar a rua... um abração dos mais gostosos, e o retorno mais feliz do mundo para casa.
A noite poderia acabar aqui e já teria sido maravilhosa, fantástica, perfeita.
Mas se em alguns segundos todo o sentimento de "feeling miserable" pode mudar após um telefonema, outro telefonema leva ela do "feeling absolutely good" para o "feeling absurdly great" já no final da noite.
00.03
Está chegando em casa e toca o celular. Ela toma um susto. Será que é o telefonema que ela espera há tanto tempo? Atende. Do outro lado da linha, uma voz que parecia tão longe fala: MEU AMOR!!!! De fato, ele mora na Austrália, está bem longe mesmo. Fica falando com ele, colocando os papos em dia, acende um cigarro na cozinha e fica lá papeando, pega pinhão na panela e fica lá papeando... Ele conta de tudo da Austrália, da vista que ele tem para a Baía de Sidney, do Rhys que cozinha muito e que eles se dão super bem e que é muito bom morar com ele, de todos os planos, dos causos do café, do departamento de imigração na Austrália, da idéia de fazer um curso, da impossibilidade de ele vir pro Brasil enquanto não sai o visto dele de "interdependência"... Ela fala um pouco também. Ela sente saudades da noite de whiskey e muito cigarro num pub escuro e irlandês, noite que mora no imaginário dos dois e só, que nunca existiu. Será possível sentir saudades de alguma coisa que mora no imaginário e que nunca existiu? Ela sente saudades da noite no pub com ele, e ele também sente saudades dessa noite. Parece que essa imagem é um acalanto para os dois. Antes de desligar, ela fala: eu te amo. E ele fala: eu te amo.
01.15
Ela vai dormir tão feliz e realizada que tudo o que ela precisa agora é de um bom cobertor pesado e uma cama quentinha. Ela tem certeza que essa não será mais uma das muitas noites de insônia que ela tem tido desde a semana passada.
20.6.08
Diálogo Inusitado
Mãe:
- Cê tá aí?
Eu:
- Tô.
Mãe:
- O que você está fazendo?
Eu:
- Contemplando...
Cenário: eu sentada em uma poltrona na sala de casa, minha mãe no corredor saindo da cozinha.
- Cê tá aí?
Eu:
- Tô.
Mãe:
- O que você está fazendo?
Eu:
- Contemplando...
Cenário: eu sentada em uma poltrona na sala de casa, minha mãe no corredor saindo da cozinha.
Temporada Surrealista
Outro dia eu estava trabalhando, olhando pela janela do meu quarto, e vi um hipopótamo voando de asa delta. Ele descia da Pedra do Baú em direção ao Vale do Paraíba, e dos Jardins eu conseguia observar seu pouso tão suave.
Nesse exato mesmo instante, uma mosca assassina do Quênia, ao migrar para as Américas, matou um urubu que também sobrevoava o Atlântico, jogou seus miúdos ao mar, e se alimentou de penas até ela se fortalecer de um tanto que ela se transformou em urubu.
As Rochosas, assim como os Andes, resolveram perder barriga e emagreceram, emagreceram, até que depois de 10 minutos nesse processo o que a gente encontrava não eram mais montanhas, e sim uma enorme depressão funda e florida, resultado do esforço das placas tectônicas para voltar ao lugar. Me disse o New York Times que ninguém morreu nesse processo, e que todos estão felizes porque agora em um relevo de depressão, pessoas que viviam em picos nevados conseguem plantar e colher. E eles plantam e colhem muitos avestruzes. Nesse processo, o Atacama virou mar e o Aconcágua ficou mais fundo do que a Fossa das Marianas.
No que eu olhei de novo pela janela, todas as cozinhas do prédio ao lado tinham se transformado em saunas úmidas, e eu via pela janela formas humanas nuas das mais bizarras. Não gosto de voyeurismo, mas vi estrias e celulites que jamais tinha imaginado. Peitos caídos e barrigas bizarras. Pés peludos e orelhas cheias de cera. Tudo isso, na sauna que era cozinha, no prédio ao lado.
E aí quando eu olhei para baixo, a garagem do meu prédio tinha se transformado em uma piscina gigantesca, cheia de bolhinhas (sim, de bolhas e não de bolas) de gude que pulavam no fundo da piscina vazia e roxa.
Então, todas as minhas unhas caíram, e no lugar delas nasceram flores. Rosas, lírios, violetas e orquídeas. O vaso de cerâmica virou oxigênio. Os vidros e esquadrias das janelas da nossa cozinha derreteram em uma lava azul gelada, que percorreu todo o chão do apê até chegar na porta do meu quarto, onde ela não entrou.
Cazuza, o canário da família, deixou de cantar seus assobios de canário e começou a cantar a lamentosa canção "eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano". Eram os vizinhos de mudando e levando junto a canária Ella (de Fitzgerald mesmo), e o Cazuza ficando aqui e curtindo sua esparrela.
Se meu Blueberry falasse ele teria explicado o porquê de sua greve. Como ele ainda não aprendeu a falar, só sei que um dia desci na garagem e o Blueberry tinha tirado todas as rodas, desmontado a direção, e quebrado o banco da motorista. Um carro que não fala o que ele reinvidica com essa greve não tem direito a almoço.
No parque Ibirapuera, esportistas deram lugar a fashionistas de cabelos mudernos e calças sem pernas e mangas sem braços e saias sem rodas. Por todos os cantos, sentados no gramado, cheiro de cigarro. Os batedores da PM faziam questão de protegê-los da selva humana que frequenta o parque buscando bem-estar físico. Quando alguém falou para eles que endorfina é mais gostoso do que outras químicas sintéticas, eles começaram a correr. Assim começou a Maratona Fashion Week.
Voltando dessa ida ao parque, parei em um café onde Jorge Amado debatia com George Gershwin a importância das eleições do Obama nos EUA. Tentei interagir com eles, mas meu mandarim não era fluente o suficiente para esse tipo de debate. Falaram também alguma coisa sobre a descoberta da maior estrela da Via Láctea, que está atraindo com sua força gravitacional todo o Sistema Solar para perto dela, e então todos derreteremos e seremos engolidos por gases (só ficará intacta a depressão formada pela ex-Rochosas e pelo ex-Andes). Me faltou conhecer Darjeeling para poder falar com eles de igual para igual nesse assunto, então decidi sair do café.
Quando eu saí do café, ora ora, me deparei com Evo Morales e seus cocaleiros em uma passeata pedindo a posse da Cracolândia para a prefeitura de SP. Segui com eles até o Viaduto do Chá, onde comprei um xale à la Arafat. A polícia me acusou de terrorista e me mandou para Guantánamo.
Lá, fui resgatada pelo hipopótamo, que ainda estava voando de asa delta pelo Vale do Paraíba, e ele me levou para a procissão do Padinho Cisso perto das estátuas dos budas ditosos na Turquia. Me resgataram dessa empreitada o Visconde de Sabugosa e o Minotauro que, melhores amigos que sempre foram, decidiram se casar no casamento gay liberado na California. Aparentemente eles querem tirar o green card para... ora ora, votar no Obama nas eleições desse ano!
Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia, um chinesinho de oito anos tirava um cochilo em uma das camas expostas na loja da Ikea em Pequim - sim, a maior loja da Ikea no mundo. E o governo chinês, essa mistura bizarra de ditadura política com economia liberal com maior poder de consumo com bomba atômica, compra terras pela América do Sul e pela África, para alimentar as barrigas dos chineses que já estão no mundo e dos que chegam ao mundo todos os dias.
A hipotenusa do próton em uma relação logarítmica com a nota musical "Lá" fez com que o guarda-chuva brigasse com a cortina.
Nesse exato mesmo instante, uma mosca assassina do Quênia, ao migrar para as Américas, matou um urubu que também sobrevoava o Atlântico, jogou seus miúdos ao mar, e se alimentou de penas até ela se fortalecer de um tanto que ela se transformou em urubu.
As Rochosas, assim como os Andes, resolveram perder barriga e emagreceram, emagreceram, até que depois de 10 minutos nesse processo o que a gente encontrava não eram mais montanhas, e sim uma enorme depressão funda e florida, resultado do esforço das placas tectônicas para voltar ao lugar. Me disse o New York Times que ninguém morreu nesse processo, e que todos estão felizes porque agora em um relevo de depressão, pessoas que viviam em picos nevados conseguem plantar e colher. E eles plantam e colhem muitos avestruzes. Nesse processo, o Atacama virou mar e o Aconcágua ficou mais fundo do que a Fossa das Marianas.
No que eu olhei de novo pela janela, todas as cozinhas do prédio ao lado tinham se transformado em saunas úmidas, e eu via pela janela formas humanas nuas das mais bizarras. Não gosto de voyeurismo, mas vi estrias e celulites que jamais tinha imaginado. Peitos caídos e barrigas bizarras. Pés peludos e orelhas cheias de cera. Tudo isso, na sauna que era cozinha, no prédio ao lado.
E aí quando eu olhei para baixo, a garagem do meu prédio tinha se transformado em uma piscina gigantesca, cheia de bolhinhas (sim, de bolhas e não de bolas) de gude que pulavam no fundo da piscina vazia e roxa.
Então, todas as minhas unhas caíram, e no lugar delas nasceram flores. Rosas, lírios, violetas e orquídeas. O vaso de cerâmica virou oxigênio. Os vidros e esquadrias das janelas da nossa cozinha derreteram em uma lava azul gelada, que percorreu todo o chão do apê até chegar na porta do meu quarto, onde ela não entrou.
Cazuza, o canário da família, deixou de cantar seus assobios de canário e começou a cantar a lamentosa canção "eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano". Eram os vizinhos de mudando e levando junto a canária Ella (de Fitzgerald mesmo), e o Cazuza ficando aqui e curtindo sua esparrela.
Se meu Blueberry falasse ele teria explicado o porquê de sua greve. Como ele ainda não aprendeu a falar, só sei que um dia desci na garagem e o Blueberry tinha tirado todas as rodas, desmontado a direção, e quebrado o banco da motorista. Um carro que não fala o que ele reinvidica com essa greve não tem direito a almoço.
No parque Ibirapuera, esportistas deram lugar a fashionistas de cabelos mudernos e calças sem pernas e mangas sem braços e saias sem rodas. Por todos os cantos, sentados no gramado, cheiro de cigarro. Os batedores da PM faziam questão de protegê-los da selva humana que frequenta o parque buscando bem-estar físico. Quando alguém falou para eles que endorfina é mais gostoso do que outras químicas sintéticas, eles começaram a correr. Assim começou a Maratona Fashion Week.
Voltando dessa ida ao parque, parei em um café onde Jorge Amado debatia com George Gershwin a importância das eleições do Obama nos EUA. Tentei interagir com eles, mas meu mandarim não era fluente o suficiente para esse tipo de debate. Falaram também alguma coisa sobre a descoberta da maior estrela da Via Láctea, que está atraindo com sua força gravitacional todo o Sistema Solar para perto dela, e então todos derreteremos e seremos engolidos por gases (só ficará intacta a depressão formada pela ex-Rochosas e pelo ex-Andes). Me faltou conhecer Darjeeling para poder falar com eles de igual para igual nesse assunto, então decidi sair do café.
Quando eu saí do café, ora ora, me deparei com Evo Morales e seus cocaleiros em uma passeata pedindo a posse da Cracolândia para a prefeitura de SP. Segui com eles até o Viaduto do Chá, onde comprei um xale à la Arafat. A polícia me acusou de terrorista e me mandou para Guantánamo.
Lá, fui resgatada pelo hipopótamo, que ainda estava voando de asa delta pelo Vale do Paraíba, e ele me levou para a procissão do Padinho Cisso perto das estátuas dos budas ditosos na Turquia. Me resgataram dessa empreitada o Visconde de Sabugosa e o Minotauro que, melhores amigos que sempre foram, decidiram se casar no casamento gay liberado na California. Aparentemente eles querem tirar o green card para... ora ora, votar no Obama nas eleições desse ano!
Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia, um chinesinho de oito anos tirava um cochilo em uma das camas expostas na loja da Ikea em Pequim - sim, a maior loja da Ikea no mundo. E o governo chinês, essa mistura bizarra de ditadura política com economia liberal com maior poder de consumo com bomba atômica, compra terras pela América do Sul e pela África, para alimentar as barrigas dos chineses que já estão no mundo e dos que chegam ao mundo todos os dias.
A hipotenusa do próton em uma relação logarítmica com a nota musical "Lá" fez com que o guarda-chuva brigasse com a cortina.
17.6.08
Top 5 coisas que me deixaram feliz nessa tarde de terça
5- Aspirações consumistas.
Me deliciar só admirando as araras da Nonsense da Lorena. Ah, quando eu voltar a ser assalariada... que delícia será!
http://www.nonsense.com.br/loja/intro.asp
4- Gulodices.
Fazer "lanche das cinco", comer pão francês amanhecido com manteiga, queijo branco, geléia de amora.
3- Mimos.
Começar a chorar descontroladamente na hora do almoço, e ter por perto uma Cidoca para fazer cafuné e me dar água com açucar; e uma Dequinha para chorar junto comigo, simplesmente por não suportar me ver chorar.
2- Bem-estar.
Sair para caminhar à tarde sob o sol invernal, aquele que não esquenta, mas que amorna as bochechas a ponto de elas ficarem rosadas.
1- Calorzinho.
Levar casacão de esquimó para a aula de yoga e usá-lo para fazer o relaxamento do final da aula, afogando a cabeça no capuz gigantesco e peludo.
Me deliciar só admirando as araras da Nonsense da Lorena. Ah, quando eu voltar a ser assalariada... que delícia será!
http://www.nonsense.com.br/loja/intro.asp
4- Gulodices.
Fazer "lanche das cinco", comer pão francês amanhecido com manteiga, queijo branco, geléia de amora.
3- Mimos.
Começar a chorar descontroladamente na hora do almoço, e ter por perto uma Cidoca para fazer cafuné e me dar água com açucar; e uma Dequinha para chorar junto comigo, simplesmente por não suportar me ver chorar.
2- Bem-estar.
Sair para caminhar à tarde sob o sol invernal, aquele que não esquenta, mas que amorna as bochechas a ponto de elas ficarem rosadas.
1- Calorzinho.
Levar casacão de esquimó para a aula de yoga e usá-lo para fazer o relaxamento do final da aula, afogando a cabeça no capuz gigantesco e peludo.
16.6.08
Tudo se converge na Blogosfera
Uma loucura essas coisas... eu sempre tenho meus blogs favoritos, de amigos ou de amigos de amigos. E os leio quase todos os dias, conforme o tempo me permite.
Porque é uma delícia ler a poesia cotidiana da Emilia; as crises existenciais da Fer; o humor ácido do Renato (amigo da amiga); as críticas políticas do Phitz, meu irmão de consideração; as risadas solitárias e (por que não?) melancólicas do Dé; o deleite, a devoção, e a veneração do delicioso Xico Sá; as críticas futebolísticas do corintiano Juca Kfouri; entre mil outras coisas de blogs tão legais - e reais - que eu me perco da realidade ao lê-los. Assim, em um puro aconchego virtual.
E hoje parecia isso, sabe? Parecia que os blogs estavam lá dialogando comigo...
Eu ia escrever sobre minha crise pré-operatória da miopia e do astigmatismo, ia escrever sobre a delícia que foi fazer hoje o exame psicodélico do Orbscan para ver se a minha córnea permite a cirurgia, ia escrever sobre meu óculos como meu acessório que existe há mais tempo na minha vida - e cujo apego a ele, não sei se eu consigo me livrar. Na verdade, ainda vou escrever sobre tudo isso (aguardem!), mas eu abri o blog do Renato e hoje, lá estava: "Eu não nasci de óculos".
Leiam aqui, ó:
http://registrodissonante.blogspot.com/2008_06_01_archive.html
No post de 16 de junho.
Eu não ia escrever de novo sobre dores de amores e outras tantas coisas decorrentes disso, até porque o "Te conto, 10 contados" é bem suficiente e, mesmo com as reviravoltas pós-post (tudo que aconteceu e que eu não contei aqui), ele continua bem atual. Assim como continua atual o comentário da Emilia, que ela deixou aqui hoje, e mais atual ainda o post dela de hoje, que me derramou lagriminhas mas que é aquela fresta de luz que a gente vê em uma porta entreaberta, a fresta de luz que dá força, e traz a esperança e a certeza de que dias melhores virão. Na verdade, é a fresta de luz que me mostra que não, o fundo do (meu) poço não é mais embaixo, definitivamente - e eu não sou tão louca quanto às vezes eu acho que eu sou.
Para ler, aqui:
http://emilianas.blogspot.com/2008/06/liberdade.html
Esses foram os dois diálogos que encontrei na Blogosfera no dia de hoje, mas queria trazer também uma menção honrosa ao blog do Phitz.
Há muito tempo ele recomendou um livro que eu comprei semana passada. Desde então, estou totalmente imersa nessa história de muita força e coragem e de muita humanidade de um cara que deixou, mesmo que discreta, uma marca importante nesse mundo das políticas internacionais, das organizações internacionais, da guerra e da paz.
Recomendo aqui:
http://geraldocotidiano.blogspot.com/2008/03/notcia-nova.html
E o livro, pode pedir emprestado daqui uns 15 dias que eu empresto com o maior prazer.
That's all for today, que eu vou curtir esses 12 graus nas ruas paulistanas tomando chocolate quente.
Porque é uma delícia ler a poesia cotidiana da Emilia; as crises existenciais da Fer; o humor ácido do Renato (amigo da amiga); as críticas políticas do Phitz, meu irmão de consideração; as risadas solitárias e (por que não?) melancólicas do Dé; o deleite, a devoção, e a veneração do delicioso Xico Sá; as críticas futebolísticas do corintiano Juca Kfouri; entre mil outras coisas de blogs tão legais - e reais - que eu me perco da realidade ao lê-los. Assim, em um puro aconchego virtual.
E hoje parecia isso, sabe? Parecia que os blogs estavam lá dialogando comigo...
Eu ia escrever sobre minha crise pré-operatória da miopia e do astigmatismo, ia escrever sobre a delícia que foi fazer hoje o exame psicodélico do Orbscan para ver se a minha córnea permite a cirurgia, ia escrever sobre meu óculos como meu acessório que existe há mais tempo na minha vida - e cujo apego a ele, não sei se eu consigo me livrar. Na verdade, ainda vou escrever sobre tudo isso (aguardem!), mas eu abri o blog do Renato e hoje, lá estava: "Eu não nasci de óculos".
Leiam aqui, ó:
http://registrodissonante.blogspot.com/2008_06_01_archive.html
No post de 16 de junho.
Eu não ia escrever de novo sobre dores de amores e outras tantas coisas decorrentes disso, até porque o "Te conto, 10 contados" é bem suficiente e, mesmo com as reviravoltas pós-post (tudo que aconteceu e que eu não contei aqui), ele continua bem atual. Assim como continua atual o comentário da Emilia, que ela deixou aqui hoje, e mais atual ainda o post dela de hoje, que me derramou lagriminhas mas que é aquela fresta de luz que a gente vê em uma porta entreaberta, a fresta de luz que dá força, e traz a esperança e a certeza de que dias melhores virão. Na verdade, é a fresta de luz que me mostra que não, o fundo do (meu) poço não é mais embaixo, definitivamente - e eu não sou tão louca quanto às vezes eu acho que eu sou.
Para ler, aqui:
http://emilianas.blogspot.com/2008/06/liberdade.html
Esses foram os dois diálogos que encontrei na Blogosfera no dia de hoje, mas queria trazer também uma menção honrosa ao blog do Phitz.
Há muito tempo ele recomendou um livro que eu comprei semana passada. Desde então, estou totalmente imersa nessa história de muita força e coragem e de muita humanidade de um cara que deixou, mesmo que discreta, uma marca importante nesse mundo das políticas internacionais, das organizações internacionais, da guerra e da paz.
Recomendo aqui:
http://geraldocotidiano.blogspot.com/2008/03/notcia-nova.html
E o livro, pode pedir emprestado daqui uns 15 dias que eu empresto com o maior prazer.
That's all for today, que eu vou curtir esses 12 graus nas ruas paulistanas tomando chocolate quente.
2.6.08
Te conto, "10 contados"
Sábado à tarde fui no show da Céu com mil idéias na cabeça e algumas lágrimas latentes, que ardiam os olhos e embargavam a voz, mas não saíam de jeito nenhum.
Daí ela começou a tocar a delicadeza sensível de "10 contados", e aquela introduçãozinha terna era tudo o que eu precisava para poder colocar as lágrimas para fora.
10 contados - Alec Haiat e Céu
Meu amor não se atrase na volta não
Meu amor não, não, não
Meu amor não se atrase na volta não
Meu amor, meu amor, meu amor, quem mandou?
Mandei uma mensagem a jato às entidades do tempo
Já me foi verificado que nem mesmo haverá segundos
Que os minutos foram reavaliados e que pra cada suspiro serão 10 contados
Meu amor, que se foi e ainda não voltou, e que provavelmente não voltará. E se para cada suspiro serão 10 contados, então acho que já conto mais de um trilhão. Queria não contar o tempo quando estou com ele, porque o tempo passa rápido demais quando estamos juntos. E é por demais dolorido contar o tempo de estar longe dele, porque a ausência bate por demais doída no peito. Mas é isso, não basta o atraso, é simplesmente um não-retorno.
Quando saímos do show o vento batia tão frio que parecia que estava cortando meu rosto e meu pescoço. Era um entardecer de sábado gelado no centrão. Fomos ao conforto gostoso do Girondino, e minha lógica cartesiana sempre tão atuante me impediu de derramar uma lágrima sequer. Logo quando estávamos entrando no metrô, a mensagem de texto que chegou era o final que eu não esperava, era exatamente o anúncio do não-retorno. Aquilo desceu tão doído que eu fiquei quieta o caminho inteiro, a parada na Sé, a baldeação no Paraíso. Desci no Trianon, e no primeiro sinal de celular disponível comecei a ligar para ver quem iria pro teatro comigo. Aos poucos eu ficava cada vez mais sozinha na Paulista, com os telefones de nãos ou os telefones que ninguém atende. Aí sim as lágrimas começaram a cair e foi dura a melancolia da ausência, do cano, da mudança de planos, tudo junto.
Não adianta pedir que o meu amor não se atrase na volta, já que não tem volta.
Basta comigo a voz doce da Céu e a introduçãozinha terna da música. Como consolo, como abrigo, como abraço.
Bastam comigo todos os suspiros, muitas vezes 10 contados.
Basta comigo a insônia.
Basta comigo a ausência.
Basta comigo essa certeza... que a gente se endurece a cada envolvimento que não deu certo, que a gente morre de medo de se entregar e de sofrer, que acabar relacionamento quando a paixão está começando a bater forte é absolutamente desanimador. Não sei se em um futuro breve quero me envolver de novo.
Está na nossa vontade de nos poupar, no nosso imediatismo, no nosso medo do sofrimento, nas arbitrariedades estranhas das nossas vontades (vontades essas que sempre deverão ser realizadas), essa característica de que a nossa é uma geração de sozinhos, porque compartilhar nos é por demais difícil.
Fácil assim.
Daí ela começou a tocar a delicadeza sensível de "10 contados", e aquela introduçãozinha terna era tudo o que eu precisava para poder colocar as lágrimas para fora.
10 contados - Alec Haiat e Céu
Meu amor não se atrase na volta não
Meu amor não, não, não
Meu amor não se atrase na volta não
Meu amor, meu amor, meu amor, quem mandou?
Mandei uma mensagem a jato às entidades do tempo
Já me foi verificado que nem mesmo haverá segundos
Que os minutos foram reavaliados e que pra cada suspiro serão 10 contados
Meu amor, que se foi e ainda não voltou, e que provavelmente não voltará. E se para cada suspiro serão 10 contados, então acho que já conto mais de um trilhão. Queria não contar o tempo quando estou com ele, porque o tempo passa rápido demais quando estamos juntos. E é por demais dolorido contar o tempo de estar longe dele, porque a ausência bate por demais doída no peito. Mas é isso, não basta o atraso, é simplesmente um não-retorno.
Quando saímos do show o vento batia tão frio que parecia que estava cortando meu rosto e meu pescoço. Era um entardecer de sábado gelado no centrão. Fomos ao conforto gostoso do Girondino, e minha lógica cartesiana sempre tão atuante me impediu de derramar uma lágrima sequer. Logo quando estávamos entrando no metrô, a mensagem de texto que chegou era o final que eu não esperava, era exatamente o anúncio do não-retorno. Aquilo desceu tão doído que eu fiquei quieta o caminho inteiro, a parada na Sé, a baldeação no Paraíso. Desci no Trianon, e no primeiro sinal de celular disponível comecei a ligar para ver quem iria pro teatro comigo. Aos poucos eu ficava cada vez mais sozinha na Paulista, com os telefones de nãos ou os telefones que ninguém atende. Aí sim as lágrimas começaram a cair e foi dura a melancolia da ausência, do cano, da mudança de planos, tudo junto.
Não adianta pedir que o meu amor não se atrase na volta, já que não tem volta.
Basta comigo a voz doce da Céu e a introduçãozinha terna da música. Como consolo, como abrigo, como abraço.
Bastam comigo todos os suspiros, muitas vezes 10 contados.
Basta comigo a insônia.
Basta comigo a ausência.
Basta comigo essa certeza... que a gente se endurece a cada envolvimento que não deu certo, que a gente morre de medo de se entregar e de sofrer, que acabar relacionamento quando a paixão está começando a bater forte é absolutamente desanimador. Não sei se em um futuro breve quero me envolver de novo.
Está na nossa vontade de nos poupar, no nosso imediatismo, no nosso medo do sofrimento, nas arbitrariedades estranhas das nossas vontades (vontades essas que sempre deverão ser realizadas), essa característica de que a nossa é uma geração de sozinhos, porque compartilhar nos é por demais difícil.
Fácil assim.
28.5.08
Blueberry
Vou contar para vocês a história do Blueberry, o carro mais fantástico, amigo e companheiro que poderia existir nesse mundo.
Blueberry, vindo ao mundo em março de 2002, caído nas minhas mãos de recém-motorista no mesmo março de 2002, batizado pela Lau poucos dias depois de ele estar em minhas mãos. Azul marinho ele é, redondinho, pequenino, e completo do jeito que eu gosto: direção hidráulica, rodas de liga-leve, ar-condicionado, travas elétricas, vidros da frente elétricos, quatro portas.
Não tem CD, porque eu gosto da idéia de deixá-lo na rua sem medo de que ele terá um vidro quebrado. Mas tem rádio, porque eu gosto de dirigir ouvindo música e cantando alucinadamente.
Tem alguns apetrechos e patuás. Tem um Ursinho Pooh que eu ganhei da Stephanie e gosto de deixar o Pooh lá porque assim eu sempre me lembro dela e de sua mãe, que me são tão queridas. Tem o Berry: um tigre daqueles de pelúcia pequeninos recheados de arroz, que fica pendurado no meu retrovisor e me acompanha com seu olhar. E tem o Blue, ursinho de pelúcia bem pequenino mesmo que tem aquelas coisas de plástico (cujo nome me esqueci) que grudam no vidro conforme a pressão que fazemos. Pendurados na parte de trás do retrovisor, os patuás: um olho grego de vidro bem bonito; um filtro dos sonhos, que está lá desde que eu ganhei o carro, porque eu queria porque queria um filtro de sonhos para proteger meu carro; e um terço, porque em todos os carros da família há um terço bento.
Blueberry já foi inúmeras vezes ao Morumbi ver o Tricolor jogar com um monte de gente dentro, e voltou ouvindo o Terceiro Tempo da Joven Pan. Blueberry já foi radical e já foi tranquilão, hora fechando e cruzando e fazendo todos os tipos de manobras absurdas, ora seguindo em frente serenamente sem medo de se entregar ao congestionamento paulistano. Blueberry, no começo de sua existência, morreu inúmeras vezes nas desafiadoras ladeiras de Perdizes.
É estranho e raro que eu seja passageira do Blueberry, e ninguém o dirige tão bem quanto eu.
Eu piso e ele responde, e então, com nosso ótimo trabalho em dupla, consigo fazer com que um carro um-ponto-zero pareça quase um um-ponto-oito. Temos uma interação sem precedentes na história dos automóveis e seus proprietários.
Blueberry já viu grupos de meninas atacadas antes da balada e depois da balada, já ouviu música alta com um bando de loucas cantando alucinadamente dentro dele, já viu o Edu parar na sarjeta, abrir a porta do carro, e passar muito mal mesmo logo ali no meio da rua. Blueberry é o carro oficial das voltinhas no quarteirão, de quando o trajeto entre a PUC e os Jardins não era o suficiente para todas as conversas que eu tinha com a Lau, e aí a gente começava a dar voltas no quarteirão sem destino nenhum, simplesmente para acabar o assunto.
Blueberry e eu adoramos pegar uma estrada, principalmente se ela estiver livre. Blueberry não tem medo de estrada de terra.
Blueberry já me viu brigar, rir, reconciliar, chorar, beijar, sofrer, falar no celular, fumar, cantar, conversar.
Blueberry testemunhou muitas coisas sozinho, mas a principal delas foi minha loucura de aniversário quando fiz 25 anos. Só eu e o Blueberry, às 4 da manhã, na 9 de Julho indo pro Cambridge. Só a gente sabia que naquele exato instante eu estava sozinha cometendo uma loucura e tanto.
Blueberry, tadinho, já se perdeu sozinho comigo na periferia de Embu, lugarzinho perigoso de verdade. E além das favelas do Embu, Blueberry já caiu comigo nas bocadas dos arredores da Estrada do M'Boi-Mirim, outro cantinho perigoso de São Paulo - mas nessa ocasião tinha mais gente no carro, muito embora todos tão embriagados quanto eu, após lendário churrasco do Strauss.
Logo no começo de sua existência, bati a roda numa guia quando fui desviar de um caminhão que me fechou, e o pneu fez PLUFT, um barulhão, e a próxima coisa que eu vi, um quarto do meu carro estava totalmente no chão, com o pneu estourado. Peguei o celular: "Paaaaaaaaaai, estourei meu pneu, vem me ajudar", aos prantos.
Blueberry pegou inúmeras vezes a Princess, para irmos para qualquer outro lugar, mas principalmente para irmos pro Image durante muitas sextas feiras seguidas em 2003 e 2004.
Só o Blueberry e a Princess, aliás, testemunharam um beijo bizarro e proibido e escondido e secreto de dezembro de 2007.
De manhã à caminho da IBM muitas vezes Blueberry brincava com seu amigo, Le Poison Blanche, que chegavam juntos ao trabalho - quero dizer à rua 7 do estacionamento da IBM, sob os cuidados atentos do Seu Antônio.
Blueberry já viu muitos amanheceres, muitos voltando da balada, e muitos quando eu ia correr no Ibirapuera bem cedinho e era tão cedinho que eu via o amanhecer do carro.
Blueberry já deu muita carona para muita gente, adoro isso de passar e pegar pessoas em um lugar e levá-las para outro lugar. É muito bom. É quase uma sensação de "pode deixar, eu consigo te tirar desse mundo" (mesmo que temporariamente).
Outro dia, no começo desse ano, Blueberry se encontrou com um caminhão de lixo e se estrupiou. Foi bem feio. Lá na delegacia, fazendo o B.O. que eu precisava fazer para acionar o seguro, o senhor PM me disse: "Dona Madame, a senhora está me contando que, ao sair da garagem da sua casa, bateu em um caminhão de lixo que estava passando no meio da rua e que a batida foi tão forte que o carro teve que ser guinchado até a oficina?" Rindo por dentro da situação patética e chorando por dentro da situação deprê, abaixei a cabeça e respondi: "Sim, senhor PM".
Blueberry é quem me entende em meu silêncio.
É meu cúmplice sem questionamentos.
Ontem eu deixei o Lindonildo na casa dele e foi passear de carro, curtir a noite paulistana e o barulhinho do motor do Blueberry, fumando um cigarrinho e pensando na vida. Eu estava muito feliz, e quis dividir com o Blueberry, quis que essa sensação de felicidade absoluta durasse mais um pouquinho, quis ouvir boa música dentro de um carro companheiro e acreditar que é verdade que eu sou feliz hoje, e que não adianta relutar contra isso. E que na verdade ficar pensando demais é uma forma de relutar, e que o que me basta hoje é sentir por todos os poros o frescor de coisas novas que 2008 traz para mim. Simplesmente sentir.
Blueberry, vindo ao mundo em março de 2002, caído nas minhas mãos de recém-motorista no mesmo março de 2002, batizado pela Lau poucos dias depois de ele estar em minhas mãos. Azul marinho ele é, redondinho, pequenino, e completo do jeito que eu gosto: direção hidráulica, rodas de liga-leve, ar-condicionado, travas elétricas, vidros da frente elétricos, quatro portas.
Não tem CD, porque eu gosto da idéia de deixá-lo na rua sem medo de que ele terá um vidro quebrado. Mas tem rádio, porque eu gosto de dirigir ouvindo música e cantando alucinadamente.
Tem alguns apetrechos e patuás. Tem um Ursinho Pooh que eu ganhei da Stephanie e gosto de deixar o Pooh lá porque assim eu sempre me lembro dela e de sua mãe, que me são tão queridas. Tem o Berry: um tigre daqueles de pelúcia pequeninos recheados de arroz, que fica pendurado no meu retrovisor e me acompanha com seu olhar. E tem o Blue, ursinho de pelúcia bem pequenino mesmo que tem aquelas coisas de plástico (cujo nome me esqueci) que grudam no vidro conforme a pressão que fazemos. Pendurados na parte de trás do retrovisor, os patuás: um olho grego de vidro bem bonito; um filtro dos sonhos, que está lá desde que eu ganhei o carro, porque eu queria porque queria um filtro de sonhos para proteger meu carro; e um terço, porque em todos os carros da família há um terço bento.
Blueberry já foi inúmeras vezes ao Morumbi ver o Tricolor jogar com um monte de gente dentro, e voltou ouvindo o Terceiro Tempo da Joven Pan. Blueberry já foi radical e já foi tranquilão, hora fechando e cruzando e fazendo todos os tipos de manobras absurdas, ora seguindo em frente serenamente sem medo de se entregar ao congestionamento paulistano. Blueberry, no começo de sua existência, morreu inúmeras vezes nas desafiadoras ladeiras de Perdizes.
É estranho e raro que eu seja passageira do Blueberry, e ninguém o dirige tão bem quanto eu.
Eu piso e ele responde, e então, com nosso ótimo trabalho em dupla, consigo fazer com que um carro um-ponto-zero pareça quase um um-ponto-oito. Temos uma interação sem precedentes na história dos automóveis e seus proprietários.
Blueberry já viu grupos de meninas atacadas antes da balada e depois da balada, já ouviu música alta com um bando de loucas cantando alucinadamente dentro dele, já viu o Edu parar na sarjeta, abrir a porta do carro, e passar muito mal mesmo logo ali no meio da rua. Blueberry é o carro oficial das voltinhas no quarteirão, de quando o trajeto entre a PUC e os Jardins não era o suficiente para todas as conversas que eu tinha com a Lau, e aí a gente começava a dar voltas no quarteirão sem destino nenhum, simplesmente para acabar o assunto.
Blueberry e eu adoramos pegar uma estrada, principalmente se ela estiver livre. Blueberry não tem medo de estrada de terra.
Blueberry já me viu brigar, rir, reconciliar, chorar, beijar, sofrer, falar no celular, fumar, cantar, conversar.
Blueberry testemunhou muitas coisas sozinho, mas a principal delas foi minha loucura de aniversário quando fiz 25 anos. Só eu e o Blueberry, às 4 da manhã, na 9 de Julho indo pro Cambridge. Só a gente sabia que naquele exato instante eu estava sozinha cometendo uma loucura e tanto.
Blueberry, tadinho, já se perdeu sozinho comigo na periferia de Embu, lugarzinho perigoso de verdade. E além das favelas do Embu, Blueberry já caiu comigo nas bocadas dos arredores da Estrada do M'Boi-Mirim, outro cantinho perigoso de São Paulo - mas nessa ocasião tinha mais gente no carro, muito embora todos tão embriagados quanto eu, após lendário churrasco do Strauss.
Logo no começo de sua existência, bati a roda numa guia quando fui desviar de um caminhão que me fechou, e o pneu fez PLUFT, um barulhão, e a próxima coisa que eu vi, um quarto do meu carro estava totalmente no chão, com o pneu estourado. Peguei o celular: "Paaaaaaaaaai, estourei meu pneu, vem me ajudar", aos prantos.
Blueberry pegou inúmeras vezes a Princess, para irmos para qualquer outro lugar, mas principalmente para irmos pro Image durante muitas sextas feiras seguidas em 2003 e 2004.
Só o Blueberry e a Princess, aliás, testemunharam um beijo bizarro e proibido e escondido e secreto de dezembro de 2007.
De manhã à caminho da IBM muitas vezes Blueberry brincava com seu amigo, Le Poison Blanche, que chegavam juntos ao trabalho - quero dizer à rua 7 do estacionamento da IBM, sob os cuidados atentos do Seu Antônio.
Blueberry já viu muitos amanheceres, muitos voltando da balada, e muitos quando eu ia correr no Ibirapuera bem cedinho e era tão cedinho que eu via o amanhecer do carro.
Blueberry já deu muita carona para muita gente, adoro isso de passar e pegar pessoas em um lugar e levá-las para outro lugar. É muito bom. É quase uma sensação de "pode deixar, eu consigo te tirar desse mundo" (mesmo que temporariamente).
Outro dia, no começo desse ano, Blueberry se encontrou com um caminhão de lixo e se estrupiou. Foi bem feio. Lá na delegacia, fazendo o B.O. que eu precisava fazer para acionar o seguro, o senhor PM me disse: "Dona Madame, a senhora está me contando que, ao sair da garagem da sua casa, bateu em um caminhão de lixo que estava passando no meio da rua e que a batida foi tão forte que o carro teve que ser guinchado até a oficina?" Rindo por dentro da situação patética e chorando por dentro da situação deprê, abaixei a cabeça e respondi: "Sim, senhor PM".
Blueberry é quem me entende em meu silêncio.
É meu cúmplice sem questionamentos.
Ontem eu deixei o Lindonildo na casa dele e foi passear de carro, curtir a noite paulistana e o barulhinho do motor do Blueberry, fumando um cigarrinho e pensando na vida. Eu estava muito feliz, e quis dividir com o Blueberry, quis que essa sensação de felicidade absoluta durasse mais um pouquinho, quis ouvir boa música dentro de um carro companheiro e acreditar que é verdade que eu sou feliz hoje, e que não adianta relutar contra isso. E que na verdade ficar pensando demais é uma forma de relutar, e que o que me basta hoje é sentir por todos os poros o frescor de coisas novas que 2008 traz para mim. Simplesmente sentir.
Destino: Tríplice Fronteira
- Puerto Iguazu parece uma cidade de faroeste com suas casinhas de madeira, suas ruas desertas, seu sol que racha. Faltou só a bola de poeira e feno rolando, que nem a gente vê nos desenhos animados.
- Essa coisa de Tríplice Fronteira é muito louca. De um lado do rio, um país; do outro lado, outro país; do outro lado, outro país. Praticamente na dimensão da terceira margem do rio que Guimarães Rosa tanto fez ficar famosa.
- Um Duty Free do tamanho de um shopping é algo deveras bizarro e muito, muito, muito louco. Assustador até. Templo do consumo elevado à décima quinta potência. Coisa estranha. Pessoas comprando frenéticamente, todas as variedades de tudo que se imagine: de relógios à vodkas, passando por perfumes e cashmeres. Impressiona e dá medo.
- O hotel era legal, mas não exatamente um master resort. Quase uma coisa tipo "décadence avec élegance". Deu para notar que na década de 60, 70, aquilo lá era um luxo sem precedentes. Hoje ficam os vestígios do passado, que não atualizam pro presente toda a imponência que existiu uma vez. De qualquer forma, a piscina do hotel era uma delícia; a varandinha do nosso quarto, com vista para a piscina, onde fumávamos e tínhamos papos cabeça, foi eleita por mim o melhor lugar do hotel; e as medialunas eram de um deleite sem precedentes. Me empanturrei.
- O céu noturno de Foz do Iguaçu não existe em nenhum outro lugar. Ainda mais quando estamos falando de noites de lua cheia.
- Ciudad del Este é o buraco do mundo. Lugar feio, fedido, barulhento, cheio de gente. Hordas de pessoas comprando sem limites com sacolas gigantescas, prontas para trazer muambas para o Brazil. Uma 25 de março muito, muito, muito, muito piorada. Policiais vagam com escopetas sem policiar nada, e sua não-ação faz com que aquilo lá se torne uma terra de ninguém onde tudo é permitido. Todos os tráficos de todas as coisas acontecem ao mesmo tempo agora. À luz do dia, a céu aberto. É impressionante. Nas calçadas, camelôs e suas tendinhas cobrem tudo e fazem sombra, formando corredores estreitos. Nas ruas, não há organização, não há paz, não há nada. Não há rua, na verdade. Nas portas das lojas, seguranças particulares ostentando escopetas ainda maiores do que as dos policiais. Em tudo quanto é canto, produtos de todos os tipos. Impressionante.
- Atravessei a Ponte da Amizade em um Mototáxi e me senti muito clandestina atravessando a fronteira de mototáxi. Maior legal. Experiência única.
- Itaipu é impressionante. As Cataratas são impressionantes. Região de megalomanias essa região da Tríplice Fronteira. Tudo é muito. As sensações são sempre extremamente acentuadas.
- A oportunidade de conhecer o diretor do Ibama para o Parque das Cataratas foi única. A casa do cara é animal, cravada em uma clareira na Mata Atlântica, cercada de mato, de animais, de rios. Uma delícia. Ele, a esposa, e a filha nos receberam como reis. O churrasco estava delicioso. As conversas, nem se fala. Tudo muito bom. Histórias de onças pintadas, jibóias e corais e cascavéis e quatis.
- Comer costela de chão, que eu nunca tinha comido, na sede da Associação dos Motoristas de Itaipu, que eu nem imaginava que existia, no aniversário de 50 anos do presidente da Associação, que eu não conhecia, foi demais.
- Conheci uma Foz que a maioria dos turistas não conhece, não fui ao Cassino na Argentina e não gastei milhares de dólares no Duty Free. Mas fiz a viagem que eu queria, do jeito que eu queria, conhecendo tudo e tendo experiência sempre muito agregadoras. É isso que faz dela uma ótima viagem: as experiências agregadoras.
- Comi muita carne e meu estômago se ressente até agora, três dias consecutivos de churrasco não é fácil para ninguém.
- Voltamos de ônibus argentino, leito, pagando quase a mesma coisa que pagamos pelo convencional brasileiro, com um conforto absurdamente maior.
- Amei.
- Essa coisa de Tríplice Fronteira é muito louca. De um lado do rio, um país; do outro lado, outro país; do outro lado, outro país. Praticamente na dimensão da terceira margem do rio que Guimarães Rosa tanto fez ficar famosa.
- Um Duty Free do tamanho de um shopping é algo deveras bizarro e muito, muito, muito louco. Assustador até. Templo do consumo elevado à décima quinta potência. Coisa estranha. Pessoas comprando frenéticamente, todas as variedades de tudo que se imagine: de relógios à vodkas, passando por perfumes e cashmeres. Impressiona e dá medo.
- O hotel era legal, mas não exatamente um master resort. Quase uma coisa tipo "décadence avec élegance". Deu para notar que na década de 60, 70, aquilo lá era um luxo sem precedentes. Hoje ficam os vestígios do passado, que não atualizam pro presente toda a imponência que existiu uma vez. De qualquer forma, a piscina do hotel era uma delícia; a varandinha do nosso quarto, com vista para a piscina, onde fumávamos e tínhamos papos cabeça, foi eleita por mim o melhor lugar do hotel; e as medialunas eram de um deleite sem precedentes. Me empanturrei.
- O céu noturno de Foz do Iguaçu não existe em nenhum outro lugar. Ainda mais quando estamos falando de noites de lua cheia.
- Ciudad del Este é o buraco do mundo. Lugar feio, fedido, barulhento, cheio de gente. Hordas de pessoas comprando sem limites com sacolas gigantescas, prontas para trazer muambas para o Brazil. Uma 25 de março muito, muito, muito, muito piorada. Policiais vagam com escopetas sem policiar nada, e sua não-ação faz com que aquilo lá se torne uma terra de ninguém onde tudo é permitido. Todos os tráficos de todas as coisas acontecem ao mesmo tempo agora. À luz do dia, a céu aberto. É impressionante. Nas calçadas, camelôs e suas tendinhas cobrem tudo e fazem sombra, formando corredores estreitos. Nas ruas, não há organização, não há paz, não há nada. Não há rua, na verdade. Nas portas das lojas, seguranças particulares ostentando escopetas ainda maiores do que as dos policiais. Em tudo quanto é canto, produtos de todos os tipos. Impressionante.
- Atravessei a Ponte da Amizade em um Mototáxi e me senti muito clandestina atravessando a fronteira de mototáxi. Maior legal. Experiência única.
- Itaipu é impressionante. As Cataratas são impressionantes. Região de megalomanias essa região da Tríplice Fronteira. Tudo é muito. As sensações são sempre extremamente acentuadas.
- A oportunidade de conhecer o diretor do Ibama para o Parque das Cataratas foi única. A casa do cara é animal, cravada em uma clareira na Mata Atlântica, cercada de mato, de animais, de rios. Uma delícia. Ele, a esposa, e a filha nos receberam como reis. O churrasco estava delicioso. As conversas, nem se fala. Tudo muito bom. Histórias de onças pintadas, jibóias e corais e cascavéis e quatis.
- Comer costela de chão, que eu nunca tinha comido, na sede da Associação dos Motoristas de Itaipu, que eu nem imaginava que existia, no aniversário de 50 anos do presidente da Associação, que eu não conhecia, foi demais.
- Conheci uma Foz que a maioria dos turistas não conhece, não fui ao Cassino na Argentina e não gastei milhares de dólares no Duty Free. Mas fiz a viagem que eu queria, do jeito que eu queria, conhecendo tudo e tendo experiência sempre muito agregadoras. É isso que faz dela uma ótima viagem: as experiências agregadoras.
- Comi muita carne e meu estômago se ressente até agora, três dias consecutivos de churrasco não é fácil para ninguém.
- Voltamos de ônibus argentino, leito, pagando quase a mesma coisa que pagamos pelo convencional brasileiro, com um conforto absurdamente maior.
- Amei.
14.5.08
Do Filme
- A atuação do Emile Hirsch está indescritivelmente fantástica e impecável.
- A trilha sonora está soberana.
- A fotografia é estupenda.
- A história é intensa em cada átomo de oxigênio, em cada gota d'água.
- As duas horas e vinte passam na sensação de 15 minutos.
- As reflexões são tantas que ainda não sei o que colocar aqui.
- Hoje na terapia falei desse filme, quase que tentando começar a digerir todas as idéias.
- Utopia é acreditar na existência de uma obstinação moderada?
- Já baixei a trilha sonora.
- Quero assistir de novo.
- A trilha sonora está soberana.
- A fotografia é estupenda.
- A história é intensa em cada átomo de oxigênio, em cada gota d'água.
- As duas horas e vinte passam na sensação de 15 minutos.
- As reflexões são tantas que ainda não sei o que colocar aqui.
- Hoje na terapia falei desse filme, quase que tentando começar a digerir todas as idéias.
- Utopia é acreditar na existência de uma obstinação moderada?
- Já baixei a trilha sonora.
- Quero assistir de novo.
13.5.08
Filme no Cinema
Hoje vou ao cinema, assistir Into the Wild que há muito eu venho postergando de assistir.
As reações de quem viu esse filme são as mais variadas.
Um amigo querido saiu do cinema em tamanho choque que ele mal conseguiu falar no telefone para marcar um café.
Uma amiga gostou tanto que foi duas vezes.
Outra amiga saiu do cinema em êxtase.
E um bom amigo que vi na festa de sábado disse que a moral desse filme é que não nos apaixonamos por uma pessoa, e sim por cada pequena coisa que nos cerca no dia a dia.
Direção de Sean Penn e música de Eddie Vedder e paisagens deslumbrantes o filme inteiro. Sim, deve ser dos mais intensos filmes. Porque a história do cara por si só já é forte a valer.
Amanhã eu conto.
As reações de quem viu esse filme são as mais variadas.
Um amigo querido saiu do cinema em tamanho choque que ele mal conseguiu falar no telefone para marcar um café.
Uma amiga gostou tanto que foi duas vezes.
Outra amiga saiu do cinema em êxtase.
E um bom amigo que vi na festa de sábado disse que a moral desse filme é que não nos apaixonamos por uma pessoa, e sim por cada pequena coisa que nos cerca no dia a dia.
Direção de Sean Penn e música de Eddie Vedder e paisagens deslumbrantes o filme inteiro. Sim, deve ser dos mais intensos filmes. Porque a história do cara por si só já é forte a valer.
Amanhã eu conto.
12.5.08
Pensamentos e Sentimentos: variados
- 3a no jantar a lula naquele spaghetti estava um absurdo de bom. Pena, muita pena, que não tomei caipirinha devido às minhas tonturas. Mas não há de ser nada: o restaurante estará sempre lá para quando as tonturas passarem.
. Deleite.
. Vontade.
-3a no Suplicy o Capuccino desceu queimando, doendo, engasgado. No good. Capuccinos não combinam com entrevistas desafiadoras. Perdi o deleite do Capuccino, mas espero de verdade não ter perdido o provável emprego. O diálogo foi bom, ágil, inteligente. Inteligível. Gente que faz, que fala, que me desafia. Aprender a humildade. Ver no outro uma provável não-humildade. Ver no outro uma bela máscara de entrevistador. A China e a Geopolítica, hoje e em 10 anos. Os celulares no Brasil. O Nobel do Yunus - da Paz. O Nobel do Al Gore - da Paz. O Nobel do IPCC - da Paz.
. Suor no rosto.
. Suor em tudo.
. Ondas de calor.
. Taquicardia.
. Angústia.
- 2a e a conversa com a acupunturista. Essa violência interna, louca para sair. Todo mundo ao meu redor sofrendo com isso. E eu, por dentro. Uma agulha aqui, outra ali. Conversa incômoda. Comprei cigarros para fumar na semana, quando tensa não abro mão da nicotina. Nossa, e a tontura desnorteante no final da tarde? Cai na lotérica. Não consegui girar a chave para entrar em casa. Atravessei a 9 de Julho de mãos dadas com uma estranha, de medo de cair. Reconheci meu medo. Fiquei frente a frente com ele. Apenas o primeiro de todos os medos a serem reconhecidos.
. Debate interno.
. Inquietude.
. Medo.
- 4a, dia dedicado ao meu Tricolor Paulista. Muita fila para comprar o ingresso. Muito trânsito para chegar no Morumbi. Ameaça de roubo do meu carro lá, na frente do Estádio. A cavalaria empacada na nossa frente na hora de entrar no Estádio. Tudo lotado na Independente. Um gol assim que entramos, já no final do 1o tempo, e a melhor companhia do mundo para um jogo no Morumbi. O jogo emocionava, as jogadas apertavam o coração, mas aquilo era um a zero e eles com dez, nós com onze. No segundo gol o Morumbi foi abaixo, os meninos caíram em cima de mim. A gente cantava insanamente, gritava, ria, e não se entendia mais. O Estádio era fumaça e muita gente, muito grito, muito barulho. Na saída, fui na frente, os meninos ficaram para trás. Saiu a Independente. Não tinha como eu fugir. Comecei a pular, fingi que estava em Salvador, me joguei no meio, resolvi curtir a bagunça ao invés de me preocupar com ela. Chegamos em casa sãos e salvos, felizes e vitoriosos.
. Apreensão.
. Glória.
- 5a e o show da surpresa, do presente de aniversário e de Dia das Mães. No palco, ninguém menos do que Johnny Rivers, o cara que faz minha mãe cantarolar pela casa. Nós quatro no segundo melhor lugar do show. Ela desacreditava na surpresa que tínhamos aprontado para ela, e nos olhos aquele brilho molhado de lágrimas se formando não deixava ela mentir: sim, conseguimos emocioná-la. Eu e o irmão éramos de uma faixa etária bem diferente do público do show em geral, mas sabíamos os Greatest Hits tanto quanto todos que estavam lá, devido ao CD de 20 Greatest Hits que temos. "Poor side of town" foi demais, "Take a good look at my face" também. Nós quatro com um lindo gosto melancólico daquele passado quando íamos sempre para Campos para nos curtir, e que Johnny Rivers costumava ser nossa trilha sonora preferida.
. Emoção de amor em família.
. Saudosismo.
- 6a e o dia tirado para descanso. Um pouco de raiva do mundo e das decisões precipitadas. Muitas saudades da yoga nossa de toda semana. Desmarca a noite, desmarca o almoço. Fica a manicure e a reunião com a sócia. Faz só o que você quer, respeita seus limites, os físicos e os psíquicos. Dorme cedo, menina. Dorme cedo, que sábado promete.
. Uma pitada de egoísmo saudável.
- Sábado de tudo ao mesmo tempo agora. Recital, almoço, café, festa. Recital que aquece o coração com aquela sensação de realização que todo mundo tem quando fecha um ciclo. Almoço de falas sussurradas faladas lentamente, mas sensação absolutamente ensurdecedora. Lá, no meio do restaurante, tirei minha armadura com vontade, expus meus sentimentos, expus meus medos, e pedi desculpas. Fiquei pelada e vulnerável, metaforicamente falando - claro. Compensou em excesso. Cafézinho de meninas de fofocas de lembranças de matar as saudades de sentir calorzinho no coração. Um abrigo, um refúgio, um cafuné, e estou nova. Pronta para ficar pelada de novo. E todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, então resolvi ir em uma festa para ser inesquecível. Inesquecível tudo, a vista do apê, as pessoas legais, a viagem solitária e gostosa só eu debaixo do céu, as músicas, as conversas, as sensações. Sabe a famosa chave de ouro? Pois bem, essa festa foi exatamente isso. Deixa, menina, larga lá atrás essa semana que acabou. Que ela não seja seu fantasma na próxima semana. Ela ficou bem lá, dentro do apê da Praça da República. A semana ficou sozinha naquela cobertura, ela debaixo do céu paulistano.
. Calorzinho no coração.
. Desafio.
. Abrigo.
. Chave de ouro.
- 5a eu aprendi que SMS definitivamente não serve para nada e que nada mais é do que uma enorme porcaria. Para mandar mensagens para confirmar coisas, para mandar mensagens fofinhas, para falar de saudades, para isso SMS pode até servir. Para ter uma DR, nunca. Para terminar um relacionamento, jamais. Para machucar alguém com um belo dum mal entendido, para isso sim, a SMS é a melhor arma. Também aprendi que afeto se demonstra, na lata. Eu, que sempre fui tão contida com medo de ficar over, descobri que ser contida pode machucar. Ué, mas não era para irmos devagar? Não era para não namorar? Pois é, sem medo de ficar over, saiba: afeto se demonstra.
. Libera esse afeto, sem medo de ser feliz.
- 4a de novo eu pude observar as conversas de fim de vida que minha avó tem com as primas dela nos chás da tarde mais deliciosos do mundo. Aprendi que mesmo aquelas velhinhas, que têm aparentemente tudo, têm na verdade uma melancolia impossível de ser descrita. Todas elas. Uma referência do que poderá vir a ser meu final de vida. A sensação reinante de bittersweet.
. Melancolia.
No sétimo dia Deus descansou.
Eu me cansei.
Festa em família aqui em casa das 13hrs às 22hrs, pelo Dia das Mães.
Os sentimentos estavam mais neutros, no entanto, já no presságio de uma melhor semana.
. Deleite.
. Vontade.
-3a no Suplicy o Capuccino desceu queimando, doendo, engasgado. No good. Capuccinos não combinam com entrevistas desafiadoras. Perdi o deleite do Capuccino, mas espero de verdade não ter perdido o provável emprego. O diálogo foi bom, ágil, inteligente. Inteligível. Gente que faz, que fala, que me desafia. Aprender a humildade. Ver no outro uma provável não-humildade. Ver no outro uma bela máscara de entrevistador. A China e a Geopolítica, hoje e em 10 anos. Os celulares no Brasil. O Nobel do Yunus - da Paz. O Nobel do Al Gore - da Paz. O Nobel do IPCC - da Paz.
. Suor no rosto.
. Suor em tudo.
. Ondas de calor.
. Taquicardia.
. Angústia.
- 2a e a conversa com a acupunturista. Essa violência interna, louca para sair. Todo mundo ao meu redor sofrendo com isso. E eu, por dentro. Uma agulha aqui, outra ali. Conversa incômoda. Comprei cigarros para fumar na semana, quando tensa não abro mão da nicotina. Nossa, e a tontura desnorteante no final da tarde? Cai na lotérica. Não consegui girar a chave para entrar em casa. Atravessei a 9 de Julho de mãos dadas com uma estranha, de medo de cair. Reconheci meu medo. Fiquei frente a frente com ele. Apenas o primeiro de todos os medos a serem reconhecidos.
. Debate interno.
. Inquietude.
. Medo.
- 4a, dia dedicado ao meu Tricolor Paulista. Muita fila para comprar o ingresso. Muito trânsito para chegar no Morumbi. Ameaça de roubo do meu carro lá, na frente do Estádio. A cavalaria empacada na nossa frente na hora de entrar no Estádio. Tudo lotado na Independente. Um gol assim que entramos, já no final do 1o tempo, e a melhor companhia do mundo para um jogo no Morumbi. O jogo emocionava, as jogadas apertavam o coração, mas aquilo era um a zero e eles com dez, nós com onze. No segundo gol o Morumbi foi abaixo, os meninos caíram em cima de mim. A gente cantava insanamente, gritava, ria, e não se entendia mais. O Estádio era fumaça e muita gente, muito grito, muito barulho. Na saída, fui na frente, os meninos ficaram para trás. Saiu a Independente. Não tinha como eu fugir. Comecei a pular, fingi que estava em Salvador, me joguei no meio, resolvi curtir a bagunça ao invés de me preocupar com ela. Chegamos em casa sãos e salvos, felizes e vitoriosos.
. Apreensão.
. Glória.
- 5a e o show da surpresa, do presente de aniversário e de Dia das Mães. No palco, ninguém menos do que Johnny Rivers, o cara que faz minha mãe cantarolar pela casa. Nós quatro no segundo melhor lugar do show. Ela desacreditava na surpresa que tínhamos aprontado para ela, e nos olhos aquele brilho molhado de lágrimas se formando não deixava ela mentir: sim, conseguimos emocioná-la. Eu e o irmão éramos de uma faixa etária bem diferente do público do show em geral, mas sabíamos os Greatest Hits tanto quanto todos que estavam lá, devido ao CD de 20 Greatest Hits que temos. "Poor side of town" foi demais, "Take a good look at my face" também. Nós quatro com um lindo gosto melancólico daquele passado quando íamos sempre para Campos para nos curtir, e que Johnny Rivers costumava ser nossa trilha sonora preferida.
. Emoção de amor em família.
. Saudosismo.
- 6a e o dia tirado para descanso. Um pouco de raiva do mundo e das decisões precipitadas. Muitas saudades da yoga nossa de toda semana. Desmarca a noite, desmarca o almoço. Fica a manicure e a reunião com a sócia. Faz só o que você quer, respeita seus limites, os físicos e os psíquicos. Dorme cedo, menina. Dorme cedo, que sábado promete.
. Uma pitada de egoísmo saudável.
- Sábado de tudo ao mesmo tempo agora. Recital, almoço, café, festa. Recital que aquece o coração com aquela sensação de realização que todo mundo tem quando fecha um ciclo. Almoço de falas sussurradas faladas lentamente, mas sensação absolutamente ensurdecedora. Lá, no meio do restaurante, tirei minha armadura com vontade, expus meus sentimentos, expus meus medos, e pedi desculpas. Fiquei pelada e vulnerável, metaforicamente falando - claro. Compensou em excesso. Cafézinho de meninas de fofocas de lembranças de matar as saudades de sentir calorzinho no coração. Um abrigo, um refúgio, um cafuné, e estou nova. Pronta para ficar pelada de novo. E todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, então resolvi ir em uma festa para ser inesquecível. Inesquecível tudo, a vista do apê, as pessoas legais, a viagem solitária e gostosa só eu debaixo do céu, as músicas, as conversas, as sensações. Sabe a famosa chave de ouro? Pois bem, essa festa foi exatamente isso. Deixa, menina, larga lá atrás essa semana que acabou. Que ela não seja seu fantasma na próxima semana. Ela ficou bem lá, dentro do apê da Praça da República. A semana ficou sozinha naquela cobertura, ela debaixo do céu paulistano.
. Calorzinho no coração.
. Desafio.
. Abrigo.
. Chave de ouro.
- 5a eu aprendi que SMS definitivamente não serve para nada e que nada mais é do que uma enorme porcaria. Para mandar mensagens para confirmar coisas, para mandar mensagens fofinhas, para falar de saudades, para isso SMS pode até servir. Para ter uma DR, nunca. Para terminar um relacionamento, jamais. Para machucar alguém com um belo dum mal entendido, para isso sim, a SMS é a melhor arma. Também aprendi que afeto se demonstra, na lata. Eu, que sempre fui tão contida com medo de ficar over, descobri que ser contida pode machucar. Ué, mas não era para irmos devagar? Não era para não namorar? Pois é, sem medo de ficar over, saiba: afeto se demonstra.
. Libera esse afeto, sem medo de ser feliz.
- 4a de novo eu pude observar as conversas de fim de vida que minha avó tem com as primas dela nos chás da tarde mais deliciosos do mundo. Aprendi que mesmo aquelas velhinhas, que têm aparentemente tudo, têm na verdade uma melancolia impossível de ser descrita. Todas elas. Uma referência do que poderá vir a ser meu final de vida. A sensação reinante de bittersweet.
. Melancolia.
No sétimo dia Deus descansou.
Eu me cansei.
Festa em família aqui em casa das 13hrs às 22hrs, pelo Dia das Mães.
Os sentimentos estavam mais neutros, no entanto, já no presságio de uma melhor semana.
5.5.08
All at Sea, Jamie Cullum
I'm all at sea
Where no-one can bother me
Forgot my roots
If only for a day
Just me and my thoughts sailing far away
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
I'm all at sea
Where no-one can bother me
I sleep by myself
I drink on my own
Don't speak to nobody
I gave away my phone
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
Now I need you more than ever, I need you more than ever, now
You don't need it every day
But sometimes don't you just crave
To disappear within your mind
You never know what you might find
So come and spend some time with me
We will spend it all at sea
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
Estou hoje o dia inteiro ouvindo essa música.
Minha sessão de acupuntura foi demolidora e edificadora ao mesmo tempo.
Preciso ficar um pouco quieta ao invés de sair por aí travando batalhas com pessoas que me querem bem.
Azedume e eu não se dão bem.
Agressividade e eu nunca tiveram nada a ver.
Aqui, no meu cantinho, e em silêncio. All at sea.
Where no-one can bother me
Forgot my roots
If only for a day
Just me and my thoughts sailing far away
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
I'm all at sea
Where no-one can bother me
I sleep by myself
I drink on my own
Don't speak to nobody
I gave away my phone
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
Now I need you more than ever, I need you more than ever, now
You don't need it every day
But sometimes don't you just crave
To disappear within your mind
You never know what you might find
So come and spend some time with me
We will spend it all at sea
Like a warm drink it seeps into my soul
Please just leave me right here on my own
Later on you could spend some time with me
If you want to
All at sea
Estou hoje o dia inteiro ouvindo essa música.
Minha sessão de acupuntura foi demolidora e edificadora ao mesmo tempo.
Preciso ficar um pouco quieta ao invés de sair por aí travando batalhas com pessoas que me querem bem.
Azedume e eu não se dão bem.
Agressividade e eu nunca tiveram nada a ver.
Aqui, no meu cantinho, e em silêncio. All at sea.
2.5.08
Que chuuuuuva!
Desobedeci.
Mesmo.
Com vontade.
Desobedeci minha acupunturista, que diz que friagem é o pior crime que um ser humano pode fazer com ele mesmo.
Desobedeci minha avó, que diz que umidade para a mulher naqueles dias é absolutamente proibitiva.
Desobedeci meus pais, que me deram dinheiro para ir de táxi na ida e na volta, para evitar a chuva.
Desencanei do frio que está lá fora, frio úmido e doído apertado.
Eram oito quadras a pé, da entrevista para a minha casa. Estava com uma capa de chuva francesa (u-lá-lá) azul-quase-cinza, lindona. Liguei a música no celular e coloquei os fones de ouvido. Capuz, uma respirada seca no coberto para pegar o fôlego, e vai.
As calçadas paulistanas são péssimas. Isso é senso comum. O que não se sabe ao certo é o perigo que elas representam em dias de chuva. Contabilizei sete quase-tombos. E seriam daqueles bonitos, dignos de uma videocassetada das mais engraçadas. Tem um tipo de pedrinha que é inimiga especial dos pedestres em dias de chuva. E a calçada com texturas, nesse esqueminha modernoso que alguns prédios de escritório têm aderido ultimamente, também é bem complicadinha. Então desci em um ritmo entre a caminhada e o samba, com muita dança, para não cair.
Passando por mim, uma mulher, louca, sem guarda-chuva, que dizia: "que chuuuuuva!", e eu imaginei de verdade a angústia dela, por ela estar descoberta.
Eu não. Ah! Eu tinha a minha capa de chuva... mas, sabe, ela ia até metade da cocha. Depois de umas quadras de caminhada, percebi que meu jeans na altura da cocha onde a capa acabava começou a grudar na perna. Percebi também que a sola de couro da minha bota foi deixando minha meia bastante úmida e fria. E por último percebi que o capuz cobre bem a cabeça, é fato, porque ele é farto. Mas ele é ligado à capa por botões, e o espaço entre o capuz e a capa, onde não tinha botões, foi aos poucos encharcando minha nuca. Também notei que eu deveria ter prendido meu cabelo em um coque, porque do jeito que ele estava solto, as pontas estavam ficando molhadas.
Mas mesmo assim, mesmo me molhando aos poucos e consideravelmente; mesmo passando frio; mesmo quase caindo; mesmo assim eu estava lá, desobedecendo com gosto e tomando chuva. E estava fazendo a coisa certa. Eu queria viver a rua paulistana em uma emenda de feriado chuvosa. Aquela coisa meio híbrida entre o dia útil e o dia de folga, entre a cidade vazia e a cidade cheia, aquela coisa meio híbrida que é a água que desce forte do lado da sarjeta, que não é asfalto e não é calçada, não é rio e nem enchurrada, mas molha de verdade.
Quando eu cheguei em casa, olhei no espelho do elevador aquela cena patética da calça ensopada, da capa que se mostrou boa só para dias de garoa, da bolsa pingando, das pontas do cabelo bem molhadas. Eu olhei e ri, ri bastante, ri deliciosamente, como criança que faz traquinagem. Eu estava molhada e com frio, mas estava absolutamente realizada.
Para não parecer uma pessoa totalmente insana, vale constar: assim que cheguei em casa tomei um bom banho quente.
Ainda no contexto do cachecol florido, o que eu tinha lá no fone de ouvido do celular ainda era a trilha sonora da Amèlie.
Mesmo.
Com vontade.
Desobedeci minha acupunturista, que diz que friagem é o pior crime que um ser humano pode fazer com ele mesmo.
Desobedeci minha avó, que diz que umidade para a mulher naqueles dias é absolutamente proibitiva.
Desobedeci meus pais, que me deram dinheiro para ir de táxi na ida e na volta, para evitar a chuva.
Desencanei do frio que está lá fora, frio úmido e doído apertado.
Eram oito quadras a pé, da entrevista para a minha casa. Estava com uma capa de chuva francesa (u-lá-lá) azul-quase-cinza, lindona. Liguei a música no celular e coloquei os fones de ouvido. Capuz, uma respirada seca no coberto para pegar o fôlego, e vai.
As calçadas paulistanas são péssimas. Isso é senso comum. O que não se sabe ao certo é o perigo que elas representam em dias de chuva. Contabilizei sete quase-tombos. E seriam daqueles bonitos, dignos de uma videocassetada das mais engraçadas. Tem um tipo de pedrinha que é inimiga especial dos pedestres em dias de chuva. E a calçada com texturas, nesse esqueminha modernoso que alguns prédios de escritório têm aderido ultimamente, também é bem complicadinha. Então desci em um ritmo entre a caminhada e o samba, com muita dança, para não cair.
Passando por mim, uma mulher, louca, sem guarda-chuva, que dizia: "que chuuuuuva!", e eu imaginei de verdade a angústia dela, por ela estar descoberta.
Eu não. Ah! Eu tinha a minha capa de chuva... mas, sabe, ela ia até metade da cocha. Depois de umas quadras de caminhada, percebi que meu jeans na altura da cocha onde a capa acabava começou a grudar na perna. Percebi também que a sola de couro da minha bota foi deixando minha meia bastante úmida e fria. E por último percebi que o capuz cobre bem a cabeça, é fato, porque ele é farto. Mas ele é ligado à capa por botões, e o espaço entre o capuz e a capa, onde não tinha botões, foi aos poucos encharcando minha nuca. Também notei que eu deveria ter prendido meu cabelo em um coque, porque do jeito que ele estava solto, as pontas estavam ficando molhadas.
Mas mesmo assim, mesmo me molhando aos poucos e consideravelmente; mesmo passando frio; mesmo quase caindo; mesmo assim eu estava lá, desobedecendo com gosto e tomando chuva. E estava fazendo a coisa certa. Eu queria viver a rua paulistana em uma emenda de feriado chuvosa. Aquela coisa meio híbrida entre o dia útil e o dia de folga, entre a cidade vazia e a cidade cheia, aquela coisa meio híbrida que é a água que desce forte do lado da sarjeta, que não é asfalto e não é calçada, não é rio e nem enchurrada, mas molha de verdade.
Quando eu cheguei em casa, olhei no espelho do elevador aquela cena patética da calça ensopada, da capa que se mostrou boa só para dias de garoa, da bolsa pingando, das pontas do cabelo bem molhadas. Eu olhei e ri, ri bastante, ri deliciosamente, como criança que faz traquinagem. Eu estava molhada e com frio, mas estava absolutamente realizada.
Para não parecer uma pessoa totalmente insana, vale constar: assim que cheguei em casa tomei um bom banho quente.
Ainda no contexto do cachecol florido, o que eu tinha lá no fone de ouvido do celular ainda era a trilha sonora da Amèlie.
O Cachecol Florido
OU: Celebrando um dia chuvoso de outono frio
Ele sempre fica lá no meu armário e é o mais difícil de guardar ajeitadinho, porque ele tem umas flores de tricot que ficam penduradas e atrapalham tudo... ao mesmo tempo que eu tenho que ter todo o cuidado do mundo para as flores não fugirem e caírem, descosturadas por algum movimento brusco.
Verde, entre o bandeira e o militar, borda de tricot inteira em verde entre o abacate e o limão, galhinhos na mesma cor da borda, e flores penduradinhas nos galhinhos. Flores, de todas as cores: miolo amarelo e contorno vermelho, miolo roxo e contorno azul, são muitas as flores que ficam penduradas. E aí elas balançam com o cachecol, conforme eu ando. Praticamente um jardim ambulante. Bonito. Doce. Colorido. Verde.
É a graciosidades em um dia de outono. Ao sair para o café, e eu queria isso, queria leveza, queria cor, queria graciosidade, coloquei o cachecol. As flores balançavam. Parece que dá para sorrir mais fácil. Parece que o óculos vermelho fica mais legal. O frio fica mais quentinho. Cores em um feriado de uma São Paulo acinzentada.
Cheguei em casa e vi a Amèlie. Não porque eu estava triste ou sonolenta, mas porque eu queria ter em casa uma continuação dessa celebração ao outono. Agora, escrevo esse post ao som de sua deliciosa, por que não suculenta?, por que não graciosa?, trilha sonora.
Depois saí de novo. Uma simples ida à padoca, ver o jogo do Santos. O cachecol me acompanhava de novo. Bons papos, aquela coisa discutindo relacionamentos de homens e mulheres e suas complicações, e éramos quatro na mesa, dois homens e duas mulheres, e todo mundo com um vasto conhecimento em histórias bizarras, tristes, felizes, bem-sucedidas, mal-sucedidas, de relacionamentos.
Cheguei feliz de volta em casa. Já não chovia mais. O frio estava apertando os ossos. O cachecol estava no pescoço. As flores ainda balançavam. Me descobri feliz, simplesmente pelas pessoas especiais que me cercam. Me descobri complexa, como todo mundo no mundo, um mundo sem pretos e brancos, e sim cinzas e, principalmente, coloridos.
Ao dormir eu sorria. Quando acordei, fiquei com vontade de usar o cachecol hoje de novo.
Ele sempre fica lá no meu armário e é o mais difícil de guardar ajeitadinho, porque ele tem umas flores de tricot que ficam penduradas e atrapalham tudo... ao mesmo tempo que eu tenho que ter todo o cuidado do mundo para as flores não fugirem e caírem, descosturadas por algum movimento brusco.
Verde, entre o bandeira e o militar, borda de tricot inteira em verde entre o abacate e o limão, galhinhos na mesma cor da borda, e flores penduradinhas nos galhinhos. Flores, de todas as cores: miolo amarelo e contorno vermelho, miolo roxo e contorno azul, são muitas as flores que ficam penduradas. E aí elas balançam com o cachecol, conforme eu ando. Praticamente um jardim ambulante. Bonito. Doce. Colorido. Verde.
É a graciosidades em um dia de outono. Ao sair para o café, e eu queria isso, queria leveza, queria cor, queria graciosidade, coloquei o cachecol. As flores balançavam. Parece que dá para sorrir mais fácil. Parece que o óculos vermelho fica mais legal. O frio fica mais quentinho. Cores em um feriado de uma São Paulo acinzentada.
Cheguei em casa e vi a Amèlie. Não porque eu estava triste ou sonolenta, mas porque eu queria ter em casa uma continuação dessa celebração ao outono. Agora, escrevo esse post ao som de sua deliciosa, por que não suculenta?, por que não graciosa?, trilha sonora.
Depois saí de novo. Uma simples ida à padoca, ver o jogo do Santos. O cachecol me acompanhava de novo. Bons papos, aquela coisa discutindo relacionamentos de homens e mulheres e suas complicações, e éramos quatro na mesa, dois homens e duas mulheres, e todo mundo com um vasto conhecimento em histórias bizarras, tristes, felizes, bem-sucedidas, mal-sucedidas, de relacionamentos.
Cheguei feliz de volta em casa. Já não chovia mais. O frio estava apertando os ossos. O cachecol estava no pescoço. As flores ainda balançavam. Me descobri feliz, simplesmente pelas pessoas especiais que me cercam. Me descobri complexa, como todo mundo no mundo, um mundo sem pretos e brancos, e sim cinzas e, principalmente, coloridos.
Ao dormir eu sorria. Quando acordei, fiquei com vontade de usar o cachecol hoje de novo.
28.4.08
Essa coisa querida que me acomete uma vez por ano
Bom, me acomete uma vez por ano, mas esse ano foi só minha segunda Virada Cultural. E esse ano me acometeu assim, fortemente... tanto que hoje estou só o pó, ainda com dores remanescentes.
Em itens e de forma bem rápida, alguns motivos porque a Virada Cultural desse ano foi demais:
- pulei de galho em galho. Em nenhum instante fiquei com as mesmas companhias por muito tempo. Isso é muito bom, me é muito natural. Juntei amigos também, em junções improváveis, muitos deles. Outra coisa que me é muito natural: juntar pessoas que sejam improváveis de se encontrarem. Ou que seja muito provável mas que nunca tenha acontecido.
- Cheguei lá sozinha. Andei um bom tempo sozinha. Parecia que no final eu precisava daquilo, para enteder que estava de novo na Virada, e que estava sozinha na Virada. Não deu medo. Deu mergulho. Imersão. Sim, eu era de novo parte dessa coisa bonita.
- Encontrei amigona e suas amigas, mas ficamos juntas por pouco tempo. O Samba da Santa Ifigênia e sua pegação eram, a meu ver, menos atraentes que o show da Gal.
- Curti a Gal com o meu irmão, lindo. Momento emoção 1: no meio da muvucona, cantar com todo mundo com as mãos pro alto: "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". E depois, em momento tranquilo: "while my eyes go looking for flying saucers in the sky". Momento emoção 2: no bis, Trem das onze e Sampa. Primeiras lagriminhas da Virada. De emocionar.
- Momento grande coincidência da noite: a minha amiga-e-sócia lá na minha frente, do nada, com o namorado querido. Pulei em cima dela e abração. Curtimos juntas a Gal.
- Nesse show da Gal, mil encontros não marcados, com pessoas queridas que já marcaram época. Um ode especial ao menino da corneta, que apareceu, que foi super carinhoso, que me deu um abração, e que está bem perdido nesse mundo. Um quê de carinho de irmã postiça mais velha, um quê de admiração de amiga, um quê de preocupação. É bem isso.
- Fomos, os quatro, até o Palco das Meninas. Marina de la Riva é linda, é simpática, canta bem, mas não sei se empolgou não. Mas eu curti. Curti mais do que o show dela, reencontrar dois amigos que não via há tempos. Curti mais do que isso a coincidência que uma amigona estava por lá também, e daí ela se juntou à trupe.
- Pausa para xixi e comidinha. Mas é a Virada... as pessoas diferentes estão por todos os lados. As pessoas conhecidas também. O centro fica lindo, vivo, cheio. Todos os estímulos ao mesmo tempo agora. Todas as artes por todos os lados. Barulhos, rostos, vozes, músicas, teatro, palhaços, gays e velhinhos, punks e famílias. Todos lá ocupando, democraticamente, com muito respeito e muito felizes, o espaço público. É muito lindo.
- Enfrentamos a multidão, achamos (a R$ 6,00!!!) uma latinha de Smirnoff Ice (ótimo para quem quer administrar o xixi), entramos na bagunça para ver o Zé. Mas era fé e só. Fé de que ele estava lá em cima e que aquilo não era um disco. Porque na verdade não dava para ver... Era fé e festa... dança empolgante com "Frevo mulher", mãos aos céus com "Vida de Gado", e novas lagriminhas.
- Dois abandonaram o barco. Ficamos em três, eu, meu amigo e vizinho querido do peito, e a amiga querida que a gente demora pra se encontrar. Fomos pro palco do Arouche, velhinhos fofos dançando sambinhas, sentei porque as pernas doíam muito. Na mais linda prova de democracia, os velhinhos dançando se misturavam com os gays que estavam em todo lugar nesse palco.
- Tudo muito paulistano. Aliás, nesse hora começamos a exaltar São Paulo. Parece que a Virada Cultural nada mais é do que isso: um ode muito lindo à essa cidade maravilhosa onde vivemos. É a população às ruas, para usufruir delas, usufruir da cidade, conviver de verdade em clima de festa e de felicidade pacífica com a diversidade. "Eu verdadeiramente gosto de morar aqui" e "Essa realmente é a cidade que eu escolhi para mim" foram as frases pronunciadas à exaustão por um trio de uma bêbada, uma cansada, e um recém-chegado à festa. E esse trio se deu muito bem, de verdade, por mais improvável que seja essa afirmação seja.
- No palco da Canja Rock Blues, pegamos o final da palhinha do Kid Vinil. Minhas pernas já doíam tanto que até anestesiadas elas estavam. Mas aquela boa música foi fundamental para eu ver que ainda tinha pique para os Mutantes. Nisso, a amiga que estava alegrinha seguiu rumo pra pista de eletrônica. Eu e o meu vizinho fomos pros Mutantes.
- De novo, era fé. Fé que tinha um Mutantezinho sequer lá em cima. Ficamos brincando do "80% menos": se eu tivesse um desejo pro gênio da lâmpada agora, desejaria que aqui tivesse 80% menos pessoas do que tem e que a gente estivesse sentado em poltronas bem confortáveis. Mas cantar Panis et Circensis com ele foi uma experiência única e memorável. E saber que essa foi a 1a das músicas que mudou a vida dele. De novo, lagriminhas.
- "Zero dois, pede para sair!". Eu pedi para sair às 5 da manhã, e estava no centro desde oito da noite. Tudo doía e os sintomas físicos se confundiam de forma absurda: dor na perna, dor nos braços, fome, sono, rouquidão, sensação de sujeira. Desisti do Cachorro Grande ao meio dia de domingo. Precisava dormir um pouquinho mais.
- Estava de volta às 14hrs, pra ver o mestre Arnaldo Antunes. Ainda com as dores remanescentes da noite anterior. Com pique total, no entanto. Domingo lindo de sol, tinha que ser curtido na Virada mesmo. A companhia, de um só e não de uma trupe mutante, não poderia ser melhor, no entanto. Anyways o showzinho não foi muito bom. Foi bem desanimador. Mas, de novo, encontrei gentes queridas: meu ex co worker de quem morro de saudades, minha prima-amiga-irmã, e o namorado querido da amiga-sócia.
- Zanzamos juntos com outro recém casal. Delícia. Dia lindo. Virada linda. Centro lindo. Todos lindos. E felizes. E de óculos escuros.
- Show do Lobão. Inesquecível. Muito bom mesmo. Cantamos juntos "Noite e Dia": "Você está me convidando, menina quer brincar de amar". Final de tarde, céu azul, centro cheio. Fecho de ouro para a Virada Cultural. Voltamos para casa, porque o corpo pedia arrego e não dava mais.
- Logo depois de sair da República, meu botão on/off foi para o off radicalmente e nada mais eu aguentava. Parecia que não era mais eu, que era um corpo sem dono, sem obedecer mais nada. Dormi, profundo, das 21.30 de ontem às 08.30 de hoje. Mas a satisfação era inenarrável. O gosto doce de poder falar com água na boca: "sim, eu curti tudo que eu pude dessa Virada Cultural".
- Disseram a Gal e depois os Mutantes, em Baby, quando todo mundo engrossou o coro de um jeito bem bonito: vivemos na melhor cidade da América do Sul. Não me resta mais nem uma dúvida sequer de que isso é verdade.
Em itens e de forma bem rápida, alguns motivos porque a Virada Cultural desse ano foi demais:
- pulei de galho em galho. Em nenhum instante fiquei com as mesmas companhias por muito tempo. Isso é muito bom, me é muito natural. Juntei amigos também, em junções improváveis, muitos deles. Outra coisa que me é muito natural: juntar pessoas que sejam improváveis de se encontrarem. Ou que seja muito provável mas que nunca tenha acontecido.
- Cheguei lá sozinha. Andei um bom tempo sozinha. Parecia que no final eu precisava daquilo, para enteder que estava de novo na Virada, e que estava sozinha na Virada. Não deu medo. Deu mergulho. Imersão. Sim, eu era de novo parte dessa coisa bonita.
- Encontrei amigona e suas amigas, mas ficamos juntas por pouco tempo. O Samba da Santa Ifigênia e sua pegação eram, a meu ver, menos atraentes que o show da Gal.
- Curti a Gal com o meu irmão, lindo. Momento emoção 1: no meio da muvucona, cantar com todo mundo com as mãos pro alto: "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". E depois, em momento tranquilo: "while my eyes go looking for flying saucers in the sky". Momento emoção 2: no bis, Trem das onze e Sampa. Primeiras lagriminhas da Virada. De emocionar.
- Momento grande coincidência da noite: a minha amiga-e-sócia lá na minha frente, do nada, com o namorado querido. Pulei em cima dela e abração. Curtimos juntas a Gal.
- Nesse show da Gal, mil encontros não marcados, com pessoas queridas que já marcaram época. Um ode especial ao menino da corneta, que apareceu, que foi super carinhoso, que me deu um abração, e que está bem perdido nesse mundo. Um quê de carinho de irmã postiça mais velha, um quê de admiração de amiga, um quê de preocupação. É bem isso.
- Fomos, os quatro, até o Palco das Meninas. Marina de la Riva é linda, é simpática, canta bem, mas não sei se empolgou não. Mas eu curti. Curti mais do que o show dela, reencontrar dois amigos que não via há tempos. Curti mais do que isso a coincidência que uma amigona estava por lá também, e daí ela se juntou à trupe.
- Pausa para xixi e comidinha. Mas é a Virada... as pessoas diferentes estão por todos os lados. As pessoas conhecidas também. O centro fica lindo, vivo, cheio. Todos os estímulos ao mesmo tempo agora. Todas as artes por todos os lados. Barulhos, rostos, vozes, músicas, teatro, palhaços, gays e velhinhos, punks e famílias. Todos lá ocupando, democraticamente, com muito respeito e muito felizes, o espaço público. É muito lindo.
- Enfrentamos a multidão, achamos (a R$ 6,00!!!) uma latinha de Smirnoff Ice (ótimo para quem quer administrar o xixi), entramos na bagunça para ver o Zé. Mas era fé e só. Fé de que ele estava lá em cima e que aquilo não era um disco. Porque na verdade não dava para ver... Era fé e festa... dança empolgante com "Frevo mulher", mãos aos céus com "Vida de Gado", e novas lagriminhas.
- Dois abandonaram o barco. Ficamos em três, eu, meu amigo e vizinho querido do peito, e a amiga querida que a gente demora pra se encontrar. Fomos pro palco do Arouche, velhinhos fofos dançando sambinhas, sentei porque as pernas doíam muito. Na mais linda prova de democracia, os velhinhos dançando se misturavam com os gays que estavam em todo lugar nesse palco.
- Tudo muito paulistano. Aliás, nesse hora começamos a exaltar São Paulo. Parece que a Virada Cultural nada mais é do que isso: um ode muito lindo à essa cidade maravilhosa onde vivemos. É a população às ruas, para usufruir delas, usufruir da cidade, conviver de verdade em clima de festa e de felicidade pacífica com a diversidade. "Eu verdadeiramente gosto de morar aqui" e "Essa realmente é a cidade que eu escolhi para mim" foram as frases pronunciadas à exaustão por um trio de uma bêbada, uma cansada, e um recém-chegado à festa. E esse trio se deu muito bem, de verdade, por mais improvável que seja essa afirmação seja.
- No palco da Canja Rock Blues, pegamos o final da palhinha do Kid Vinil. Minhas pernas já doíam tanto que até anestesiadas elas estavam. Mas aquela boa música foi fundamental para eu ver que ainda tinha pique para os Mutantes. Nisso, a amiga que estava alegrinha seguiu rumo pra pista de eletrônica. Eu e o meu vizinho fomos pros Mutantes.
- De novo, era fé. Fé que tinha um Mutantezinho sequer lá em cima. Ficamos brincando do "80% menos": se eu tivesse um desejo pro gênio da lâmpada agora, desejaria que aqui tivesse 80% menos pessoas do que tem e que a gente estivesse sentado em poltronas bem confortáveis. Mas cantar Panis et Circensis com ele foi uma experiência única e memorável. E saber que essa foi a 1a das músicas que mudou a vida dele. De novo, lagriminhas.
- "Zero dois, pede para sair!". Eu pedi para sair às 5 da manhã, e estava no centro desde oito da noite. Tudo doía e os sintomas físicos se confundiam de forma absurda: dor na perna, dor nos braços, fome, sono, rouquidão, sensação de sujeira. Desisti do Cachorro Grande ao meio dia de domingo. Precisava dormir um pouquinho mais.
- Estava de volta às 14hrs, pra ver o mestre Arnaldo Antunes. Ainda com as dores remanescentes da noite anterior. Com pique total, no entanto. Domingo lindo de sol, tinha que ser curtido na Virada mesmo. A companhia, de um só e não de uma trupe mutante, não poderia ser melhor, no entanto. Anyways o showzinho não foi muito bom. Foi bem desanimador. Mas, de novo, encontrei gentes queridas: meu ex co worker de quem morro de saudades, minha prima-amiga-irmã, e o namorado querido da amiga-sócia.
- Zanzamos juntos com outro recém casal. Delícia. Dia lindo. Virada linda. Centro lindo. Todos lindos. E felizes. E de óculos escuros.
- Show do Lobão. Inesquecível. Muito bom mesmo. Cantamos juntos "Noite e Dia": "Você está me convidando, menina quer brincar de amar". Final de tarde, céu azul, centro cheio. Fecho de ouro para a Virada Cultural. Voltamos para casa, porque o corpo pedia arrego e não dava mais.
- Logo depois de sair da República, meu botão on/off foi para o off radicalmente e nada mais eu aguentava. Parecia que não era mais eu, que era um corpo sem dono, sem obedecer mais nada. Dormi, profundo, das 21.30 de ontem às 08.30 de hoje. Mas a satisfação era inenarrável. O gosto doce de poder falar com água na boca: "sim, eu curti tudo que eu pude dessa Virada Cultural".
- Disseram a Gal e depois os Mutantes, em Baby, quando todo mundo engrossou o coro de um jeito bem bonito: vivemos na melhor cidade da América do Sul. Não me resta mais nem uma dúvida sequer de que isso é verdade.
25.4.08
Minhas últimas sextas feiras
Minhas três últimas sextas feiras (contando com hoje) começaram exatamente desse jeito.
Sabe criança pequena que acorda no dia do aniversário, ou no dia de Natal, e daí tá na cama e de repente abre o olho rápido e toma um susto?
- Nossa, hoje é meu aniversário!
- Nossa, hoje é Natal!
A criança senta na cama rápido, fica com os olhos meio esbugalhados, querendo acordar e acreditar que é verdade, que a data chegou mesmo.
De verdade! Chegou o dia!
A criança pula da cama, sai correndo do quarto, "Bom dia, dia!", ela grita, "Bom dia, dia!" pela casa, que bom que chegou o grande dia!
Ah, a criança está muito feliz!
Agora, fica com tremeliques esperando chegar a hora. Tremeliques contando os segundos para a festa de aniversário, contando os segundos pelo presente do Papai Noel. Tremeliques, a criança não pára, anda de um lado pro outro, corre, faz muita coisa, o corpo não pára, a cabeça não pára.
Fiquei assim para receber minhas amigas cariocas (penultima sexta).
Fiquei assim para tomar uma breja bacana (ultima sexta).
Estou assim hoje porque chegou a Virada Cultural.
E pensar que fiquei um ano esperando por isso... e aí... chegou...
Sabe criança pequena que acorda no dia do aniversário, ou no dia de Natal, e daí tá na cama e de repente abre o olho rápido e toma um susto?
- Nossa, hoje é meu aniversário!
- Nossa, hoje é Natal!
A criança senta na cama rápido, fica com os olhos meio esbugalhados, querendo acordar e acreditar que é verdade, que a data chegou mesmo.
De verdade! Chegou o dia!
A criança pula da cama, sai correndo do quarto, "Bom dia, dia!", ela grita, "Bom dia, dia!" pela casa, que bom que chegou o grande dia!
Ah, a criança está muito feliz!
Agora, fica com tremeliques esperando chegar a hora. Tremeliques contando os segundos para a festa de aniversário, contando os segundos pelo presente do Papai Noel. Tremeliques, a criança não pára, anda de um lado pro outro, corre, faz muita coisa, o corpo não pára, a cabeça não pára.
Fiquei assim para receber minhas amigas cariocas (penultima sexta).
Fiquei assim para tomar uma breja bacana (ultima sexta).
Estou assim hoje porque chegou a Virada Cultural.
E pensar que fiquei um ano esperando por isso... e aí... chegou...
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